27 dezembro 2010

Preparativos para Desfile de Natal - NH
21.12.2010

18 dezembro 2010

.

Discretamente
Dispo-me
Em puro nu,
Quero descobrir-me,
Quero decifrar-me,
Sem verdades ocultas
Nem reentrâncias banais,
Um amor, um sonho, uma paixão,
Qualquer arrepio que seja,
Que me diga o sentido deste viver,
Que me mostre às razões deste viver,
Que me guie por palavras certas,
Escritas em linhas tortas,
Que alivie a dor da ilusão,
Que alegre meus dias de aflição,
Que me faça sorrir,
Ou chorar...

"PERDIDAMENTE"

Eis como tudo entra de repente
pelas palavras e pelos gestos
impulsivamente

Eis como cai o pano do palco
num arrepio de verdade

E de súbito
a trama do drama
se torna real!

A história perdeu sentido
porque tudo começava
onde tu começavas
e em tudo eras o símbolo da minha história

Fez-se silêncio
no sino que tocava alegremente
em todas as aldeias do meu sangue

Agora apenas um rasto ou a memória
do imenso tamanho da saudade
que me habita... Perdidamente.
No dia que eu voltar
Sorria
Pois voltarei com sorriso nos lábios
Dê um abraço
Faça aquele doce que gosto tanto
Te trarei tantas coisas
De cada canto do mundo
Existiram cantos que pensei em ti
Cantos que quis te esquecer
E cantos que entoei para a lembrança
Você vai estar outra
Mas vai estar com o mesmo par de
Olhos negros perfeitos
Sombrancelhas perfeitas
Nariz perfeitamente desenhado pro rosto
Os lábios charmosos e engraçados
O jeito séria
Creio que não carracunda
Quando eu voltar...

Nesse dia não quero voltar
Não quero também beijos longos
Demorados
Não quero crises
Brigas
Desamores e desafetos
Quando eu voltar...

Quando eu voltar
Será só consolo
Conversas
Fogueira
Queijo
Goiabada
Uma cabeça repousando
No ombro da outro
E dizendo furtivamente:
Saudades...

É, saudades imensas mesmo

Sorria, você está sendo filmado!


A todo momento
Cada instante
Mesmo na inocência
Argumentos
Razões, sujeitos
Pensamentos

Sorria, você está sendo viagiado!

Onde pisa
O que come
Por que fala
Como fala
Com que frequência sai de casa
Qual a rotina de seus dias febris...?

Sorria, você está sendo visto!

Aonde que nunca sei?

Desde o momento do tapinha e primeiro respirar
Até os murros e o ultimo suspiro
Com os primórdios lá, você e os macacos
Nas pulgas do cão que o dono abraça com tanta força
Na força também
Nos empurrões
Em trancos
Dentro deles também

Sorria, existe muita gente querendo saber!

Aonde que ainda nunca sei?

Enquanto fumava
O velho do outro lado da rua pediu um maço
Diz ele que ficou a tarde inteira para pedir
Que eu andava fumando muito, que era ruim fumar

No horizonte eu via
Não, passaria por duas ruas diferentes
Porque tava meio anestesiado naquele caminho

Sorria, você está sendo filmado?

Mas olha
Será por quem?

Olhos Alagados


Eu podia ser o sol
Iluminar teus caminhos
Alegrar teus ébrios desatinos
Teu calor, inferno bom
Desatar de nós os nós.




Talvez ser a lua
Mensageira da luz do astro rei
Limpar uma alma, dar vida
Uma placa de metal, pela ferrugem carcomida
Pelo tempo, pelo sal
Tornando-a nova
Ser, e só ser, um ser sentimental.




Uma inspiração poética
Da vida, da morte
Teu colo, teu norte
Calmaria e vendaval.






Um peculiar timbre de uma ave

Afastando os prantos
Nos olhos, nos campos
Das portas abertas
Uma só chave.





Um peixe
Desvendando os segredos dos navios naufragados
Ir bem, além, fundo
Onde a luz do sol não chega
Onde a lua não influencia
O som das aves não se ouvia
Perdendo a bela primazia
Agora, aos meus prantos, os olhos alagados. 






17 dezembro 2010

Lobos

Introduziram-me num
Circulo de lobos famintos.
Caminho descalça,
Saltando sob as brasas
Que caem de suas bocas.

Ando num mundo novo,
Mas as pessoas são velhas,
Suas mentes apodreceram.
Elas têm medo de minhas palavras.

Agora querem me encerrar
Numa torre de pedras.
O meu coração é um tambor
Apanhado no sótão dos loucos.

Toca violentamente
A favor dos excluídos
E de mim mesma
Que sonha utopias
De rimas inesperadas.

Essa é a realidade atroz
Numa atmosfera morta,
Que caminha em desacerto
Com esse mundo insano.

Quando o Inverno Chegar



Depois da partida,
depois de tudo,
quando restarem lembranças puídas,
não chore o leite derramado
nem as palavras ditas.
Aceite a distância então intransponível.
Não arrependa-se 
das porradas 
que desferiu
gratuitamente.
Você não precisa disso.
Nem das lágrimas que causou
por ser pequena,
nem das desditas.
É tudo da vida,
dos desencontros
que você criou,
que inventou,
que fortaleceu,
que alicerçou.
Eu tento aprender a andar pela vida
de pés descalços,
jamais de salto alto,
e ando. Eu preciso.
Você, não!
Você está de parabéns, 
é um colosso,
você é bárbara,
é um assombro.

15 dezembro 2010

..



Qual a pílula para esse noite?
O desejo que invade e que transborde
Que loucuras lhe desejam essa semana
O prato mais insosso é também o mais bacana?

Qualé a vida que te separa
Que problemas se deparam
É maldade no coração
É bondade demais sem pulsação?

Que tédio é o maior do mundo
O que é pior do que o tédio?
Qual a bruma que te esconde dessa vez
A outra resposta não vai vir
Você sabe que não
Pois a cabeça é tez
Nem a outra
Nem nossas, ósseas.

Quais as palavras mais duras?
Que viés vai te esconder mais uma vez no convés?
Que mares você vai deixar de navegar hoje?
Que barcos você deixou de abordar pela fraca navegação da mente?

Algo puritano
Proviciano
Tapado, amado
Moderno

Quantos quadros que você nunca interpretou?
Quantas odisseias nunca vividas você interpretará!
Qual o sentido dessa noite
O tamanho da pílula que vai brilhar a tua vida

Qual é a tampa da sua privada?
O vício que vem do mato e também não mata
Sua mão costurada nos confins
A vida de todos os afins

A pílula
Lulapi
Pilalu
Lapilu

Qual é o seu pí inexistente que calcula seu raio onipresente
O seu lú mais lúcido
O seu lá mais sagaz
Preenchendo a música do silêncio
O silêncio da música que falta nesta noite

Qual é o sentido da sua felicidade?
Qual é a pílula que não lhe trará maldade?
Qual é o sentido de certas coisas...
No fundo, qual o sentido do mundo?

Loucura



Agora eu sabia que pagava algum tributo,
As coisas confessadas.
Reconhecia a respiração ofegante,
Sentia estar só, além da sombria
Desolação da eternidade.

Precisava sair dessa escuridão
E voar acima da cinzenta cidade.
Estava cansada da dissipação humana.
Dessa poeira à cata de raios de sol.

Uma corrente raivosa
Arrastava pedaços de pensamentos
E de antemão já sabia que quando
Recobrasse a razão estaria louca.

As Palavras



Ela não podia mais deixar
As palavras soltas pela casa.
Eram palavras ocultas
Que queriam surgir.

Seguiam-na como soldados,
Desfilando, implorando um lugar
Num poema qualquer.

Queriam ser invocadas
Por alguém que ama,
Que clama por uma lua.

Como pisca-piscas giravam
No alto da sala,
Perdiam o rumo do papel
E se instalavam numa província
Ao lado da escrivaninha.

Conspiravam entre elas.
Esperavam a inspiração chamá-las.

De repente, o céu se mexia delicadamente,
Juntando nuvens de algodão.
O violino tocava a ária da espera e
Ela dançava dentro da moldura do retrato.

As folhas se juntavam alinhadas
E as palavras enlouquecidas
Organizavam-se entre elas.

Dentro de uma visão matizada
De encantos obscurecidos,
Saltavam aos punhados
Defendendo seu pequeno espaço.

Enroscavam-se em suas idéias lascivas
Perdendo-se em lençóis, flores, beijos estrelados.
Até, finalmente caírem
Sob a folha em branco, esgotadas.

.



Retorno de onde nunca sai,
Pois por aqui criei minhas raízes,

Por aqui despejei minhas angústias,
Chorei meus amores,
Foi bem por aqui que descobri meus segredos,
Aprendi os dilemas do certo e errado,
Conquistei amigos de sentir saudades,
Foi por aqui que voltei a sorrir...
Escrevi meus devaneios casuais,
Brinquei de rei, interpretei paradigmas,
Vasculhei as soberbas da indiferença,
Sucumbi aos martírios do descaso,
Sobrevivi aos percalços do erro,
Enfim por aqui renasci meus sonhos,
Voltei a enxergar meus passos...


Afinal



Sem cancelas segue o homem
tranquilo,
a passos lentos. Segue incerto.
Se chuva, choverá por certo.
Ao sol, inclemente sempre,
o mormaço de um corpo só.
A mente latente,
moléstias sem sintomas aparentes,
elucubrações. Personalidades refrescantes:
Um banho de ácido cítrico,
Uma ducha de sementes,
Um olho por olho, um dente.
Sintonias, serpentes, agonia pungente.
O dia que não veio,
a noite larga,
aurora pálida,
a espera aflita, desencontro vindo,
o the end.

02 dezembro 2010

Imagens d'águas



Esses meus latifúndios invernais
que se dissolvem e flutuam
como vapor d'água
de panela de pressão,
indefiníveis por vezes,
claríssimos por outras,
estridentes sempre,
nunca são iguais.

São como o jorro
da água verde
que se joga fora.

Esses meus atritos cerebrais
que não se aquietam e rompem
como raios noturnos
todos os orifícios da mente,
impossibilitados por vezes,
imponentes por outras,
estrondosos sempre,
nunca são iguais.

São como a água corrente
serpenteando a serra,
furiosa,
descansando no mar.
Viram nuvens, orvalho, cascatas.
São mapas,
mosaicos
prá quem sabe enxergar.


Cego



Foi na extrema escuridão
Que meus sonhos despertaram.
Levantei-me desse lugar de sombras
Vasculhando na memória,
Onde os pesadelos se fabricavam.

Pedi que meus olhos enxergassem
E pudessem te ver de verdade.
Não queria mais a nevoa que te cobria.

Herdei um milagre
E o depositei sob os teus olhos.
Você pensou demais para pegá-lo
E a penumbra tomou conta de nós.

Tudo foi tão breve,
Nem tive tempo de me mostrar
Antes que você se aterrorizasse
Com o prenuncio de eternidade.

Passeio Público




O ar que respiro é o ar da cidade,
dela que me absorve
em alegres rodeios
por praças públicas.
As praças e as pipocas,
os pontos de ônibus,
os bares cheios.
De algo estou certo: É Janeiro!



01 dezembro 2010

Verbo Estar




Olá, grande figura
que veio quieta 
assombrar meu dia 
de poeta absorto. Olá! 
Quisera estar alhures,
ou cá, mas sem olhares
a me observar. Quieto,
sem palavras, sem as dores,
Como fui feito: de barro...eu canto
um estranho mantra,
sómente danço 
no relento 
de um dia chuvoso,
Bebo a música inteira
tragada
no ar, 
sem copos,
sem par.



[ontem à noite]



Hoje, ofereceram-me a Lua
Delicadamente, aceitei
Deitei-me ao relento e embebi-me com o singelo véu fluorescente que abraça o céu

Festejei sob seu manto
Tantas vezes, declarei-me apaixonada, ajoelhada a ela
Hipnose

Saí correndo à esmo
Em busca da tua escada
Subir, voar, chegar a ti
Gritar aos ventos
Até o Sol se enciumar
O quanto me fascinas

Despertou-me para o Adeus
Beijou-me frio
Como quem banha no orvalho do novo dia

Apenas ri
: Adeus.



Universos



Deus paira na fosforescência
Dos anéis cósmicos,
Senta-se no arco flexível de pó cintilante
Tecendo rendas de estrelas
Pensando em nós como contas.

Enfia-nos em fios sutis de dois em dois,
Iguais lágrimas que se juntam formando pingente.
Solta-nos na Terra em voo leve
Deixa que pousemos em notas sonoras
Ditas em sussurros: Amor, amor, amor...
Enquanto sucumbimos, embriagados e famintos,
Dentro da palma de Sua mão que brinca.

Ele ri e treme ante a delícia do gozo terrestre.
Acaricia o sangue que pulsa
Em nossos corações iluminados.

Quando tudo germina na confusão dos corpos,
Ele desce para beber a espuma de nosso mar.
Lambe a água primordial
Na saliva de nossas bocas,
Enquanto explodem universos.



Algo mudado



Meu calado poema
meu magro poema triste
findo oblíguo poema
emagrecido
meu triste poema conciso
poema das poucas portas
de leves horas mortas
debruçado em janelas
tortas
de uma vida
pouca
sem molduras.


27 novembro 2010



Estrelas...de um céu escuro.
Estrela que urgem um futuro.
Tão louco e inconsequente,
Negro e indiferente.

Invioláveis nas nuvens que a encobrem,
miseráveis lástimas que as dissolvem.
Escorrendo lágrimas entre os ventos
afundando na terra eterno lamento.

Tão miserável seria, se a esperança trouxesse a agonia.
Dilaceramente envolvido, secretando o medo escondido.

Pedir-se-ia a lua que voltasse com seu fulgor.
Para esconder essa dor, em alguma constelação perdida.

E nesse céu profundo que insiste em tragar o dia,
mais uma vez, o céu choraria, lágrimas vazias.

Desse eterno dissabor.

Cético



Quanta pouca coisa eu vi
naquele instante sobre a mesa.
Poemas esbugalhados,
rimas tensas,
sonhares avulsos.
Sobre a mesa e sobre os livros
abertos
deixei calados meus óculos
ébrios.
Estavam calados os textos,
era um tempo de relógios parados.
Arriada a cadeira,
sentei-me na beirada
da cama
a pensar
sobre tudo, sobre nada,
já um tanto mais velho
epilético.

Eu



Eu sou um cara empolgado
Ando por muitos caminhos
Faço muitas coisas, realmente me dedico a elas
Por pouco tempo

Eu penso muito em mim
Quem eu sou?
O que eu quero ser?
Me sinto como sendo extremamente ambicioso
Carente de uma riqueza que o mundo não me oferece
Uma riqueza invisível, que eu tento enxergar, vejo um vulto dela
Sinto seu cheiro pela minha língua
Ouço através do tato
E não faço idéia do que é

E eu me vejo como um corredor que traça muitos caminhos
Não conhece nenhum direito
Não conquista esses lugares
E eu me vejo como um mergulhador, que mergulha muitas vezes
Tenta mergulhar tão profundamente quanto possível, mas perde o fôlego
E volta pra superfície

Mas a cada mergulho meu fôlego melhora
Eu mergulho mais fundo

Mas a cada caminho meus músculos se fortalecem
E eu corro mais

Percebo que essa é minha ambição
Minha ambição sou eu
Me melhorar
Me conhecer
Simplesmente seguir com essa vida
Curtindo cada estrada
Cada mergulho
E pensando em como serão fundos os mergulhos
Em como serão esplendidas as estradas

Inocente e Réu

Onde andei, por caminhos difíceis, sombrios e íngremes
Descobri a esperança, o renovar de cada andança, caridades e crimes
Passeando e observando no caminho, pássaros que vão e vem com gravetos no bico
Lembro de outras épocas, ninhos de cantos e gemidos.

Uma vida de baixos e apogeus.

Sinto saudade, sinto o perdão que outrora não conhecia
Aprendi, durante esses anos vividos, a amar e saciar a quem me sacia.

Doar-me mais e cobrar menos, a ser moderno amando o eterno, ser bom aprendiz
Aprendi a controlar minha raiva, ter paciência, pisando em ovos passando feliz.

Nesse caminho, a luz de fogos, declamo mansinho os versos teus
O vento mexe as margaridas, campos de trigo, a minha vida, baú de amigos.

Em outra vida eu fui um rei, ou fui um príncipe, bobo da corte ou um plebeu
Quem sabe hoje eu te visito e faço um bolo aos sons antigos.
Só tu e eu.

Na paisagem de tua janela, de frente ao lago, o pôr do sol
E no crepúsculo, ouvindo os sapos, os violinos, clave de sol
Sinto o toque divino, no verde e no azul piscina do céu
Vejo que ainda sou menino, sou desde pequeno, inocente e réu.

Todos Iguais



Mas era apenas um simples aceno de adeus
nada mais do que um aceno
nem um grande e definitivo
adeus triste solitário e final
Páginas do tempo amarelado e frio
desbotaram
páginas marginais dos tempos esquecidos
puídos
das maquiagens sociais
totalmente profissionais
O inclemente espírito aleatoriamente inserido
o dilacerante
o circense
o psicopata
o cru
Nenhum de nós esconde o trivial
o banal
momento de angústia
o repelente estado emocional
o vício eterno
das virgens,
dos sacerdotes fabricados a bordunadas
de explêndidos mantos clericais e ordens divinas.
Nos alimentamos de pizza
de strogonoff
de salsichas
Nós amamentados atualmente matamos
Nós fomos acariciados e banhados por anjos
mas
Nós agredimos e temos língua ferina
nós somos o bicho
maldito
Nós promovemos a guerra perpétua
entre os seres iguais
Nós somos o Colosso
um caroço
Nós somos um perigo.

20 novembro 2010

Pois o amor...

Pois o amor não é algo que se ganha
Que se perde
O amor não é algo que se escapa
Que tem capa

O amor não desce do rochedo
Se não faz se atacarem de lá
O amor não faz morrer
O amor faz amar

Digam que só o querem
Sendo que não o exercitam

Amar é uma coisa diferente
Tem haver realmente com dar

Quando a gente ama de verdade
Não importa o amor
Sendo que só ele importa

Sendo que na falsidade
O importante não é o amor
O importante não é amar

Anseios da relva essas diferentes formas
Quero desistir do gostar
Me concentrar na ação 

Amar depois do antes do gostar

Labirintos



Agora
somos só o prazer de buscarmos insones
sonhos por realizar.
O tic tac marca a distância.
Nossos olhos vagueiam sem direção.
Nosso dedos tamborilam mil perguntas
atropelando a mente.
A alegria do encontro parte antes da hora.
No assento da lucidez façamo-nos poeta!
Fiquemos na janela... 
Esperando que abram os umbrais.

[procura]



O que vês ao olhar no espelho?
Vejo um rosto pálido
Sem luz
Sem brilho, nem cor
Vejo olhos fundos
Perdidos no vácuo
Um buraco delineado com as curvas do seu corpo

Olho no espelho
Sinto a chuva molhar meu interior
Busco braços
Anseio abraços
A chuva inunda meu rosto

Falta o ar
Falta o chão
Falta você
Falta a verdade
Falta um reflexo

Falta me ligares e dizer
: "Voltei."



Pedra bruta a margem do caminho.



Poderíamos ter feito
daquela dança ao vento
uma história,
sem precedentes.
A música e a aurora,
o balanço dos corpos,
nossa metástese.
Mas, não! O sim caído
moldou-se ao chão.
As notas descuidadas,
intranquilas,
frouxas,
os sopros arrebatados,
caiados,
os vincos da paixão...
seara restrita de arroubos ligeiros.

<*>





Desatar os nós é difícil
Como cortar os pulsos
E correr um longo caminho com final bifurcado
Que rumo escolher?
Aceitar a solidão,
Ou insistir na negação da negação?
Tanto faz
A corda já está no pescoço
Sinto o ar sufocar
Afogar a velha verdade
A vontade inventada
A verdade fingida


Permaneço estática
Com um sorriso de acessório
Que sempre cai
Como um girassol num dia nublado


Basta pensar em você

**...



Quando éramos livres
Não nos preocupávamos com nada
Os problemas eram soluções
Passageiros do trem mágico
Em cada gota de suor alguma recompensa
Em cada opção um sorriso


Ai vem a incongruencia das serras
A diferença do mar e das montanhas
Fica-se sem se falar por muito tempo
Observando


Já não é nem mais serra
Nem montanha
Nem mar
É apenas tempo


Quando o tempo do tempo
Te prepara emboscadas
Vem os pensamentos quadrados
E as pessoas mais quadradas ainda


Antes brincávamos de sentar uns nos outros
Hoje isso é um pecado
Quase que mortal


Não se incomoda
Pois incomoda-se
É dificil ser assim...
O que um lado quer de mim, ou outro não quer
Já cá no meio
O trem passou


Deixa-me apenas uma mala
Já não há tantas coisas
Nós eramos muitos
Nas dúvidas e questionamentos
Cada um desceu numa estação diferente...

"O TEMPO E O GESTO"



Tenho um relógio em cada gesto
marcando o tempo da eternidade.

Não, não tenho data nem idade
sou apenas contemporânea
deste momento e a verdade

é
que já fui raínha de cada instante
amante do vento
esperando a Primavera.

A irmã renegada
duma revolução frustrada
Capa de calendário
amarelecida pelo tempo
mascarada de D. Quixote.


Nem o vinho regressa
á boca onde foi festa,
nem o beijo à boca
onde foi útero

Crepúsculos



Vamos tocar essas cordas tensas de sangue.
Arbusto vivo queimando o momento.
Lava de pedra incandescente,
Recriada entre os risos das ondas.


Bocas que ardem mordidas,
Dedos presos, inacessíveis ao toque.
Gritos de espanto
Imaginando a melodias cadenciada
E o ritmo escarlate do coração arrítmico
Batendo dentro do ventre.


Espírito navegante,
Agitando-se alucinado num barco frágil,
Dentro de um mar viscoso.


Somos resina líquida
Empoçada entre as coxas.
A alegria brota em cascata
Pelos vãos da noite.


Bebo sua voz, seu caule tenso que ferve.
Sou deus sob sua sombra
Que esmaga a loucura de meu ventre.
O fogo que é teu me incendeia.
O mundo nasce das fendas arrebatadas,
E dos espasmos encontrados
No caminho dos nossos crepúsculos.

Lembrança


Deste tudo que me lembro,
Você é quem está
Na vigília dos dias
Em que tremi.


As margens cobiçadas
Do meu leito,
Os lençóis que voavam
Pelo quarto
E o caminho da boca
Que se multiplicava
Saltando na sua sede.


Por trás dessas lembranças,
Ouço o farfalhar
De um corpo que se dobrava
Desvairado, sem sombras
Da solidão dos dias.


Saltei no abismo
Encontrando teus braços
Que me mostraram
Caminhos e cavernas quentes.
E no fundo de um leito,
Um lado a lado
De nós dois sonhando.


[à busca]

Cansei de fingir
Fingir que estou bem
Que sou forte
Que vou superar


Parei com os sorrisos
É tudo uma falácia!
Para que lábios reluzentes, se os olhos não tem alma?


Sorrisos... são pra quem pensa enganar a dor...


Levo dúvidas ao espelho
Me diz o que já sei


Meias verdades são meias mentiras


Delas já estou farta!
Já não me interessam...


Ao pisar firme, caio
Mergulho no vazio
Atraco-me à dor
Ela me devolva à ti
Mas não te encontro


Onde vais?
Por que não senta aqui?
Afaga meus cabelos
Sussurra: "Quero-te..."


Sinto-me tonta
A cabeça gira
Meu peito enche e a garganta trava
Eu solto...
...o choro desce...


Cadê você?
Por que não estás aqui?

"OLVIDAR"


Já esqueci as palavras
e dos gestos apenas 
as penas
tais como restos
onde o frio adormece.

Já esqueci os apelos
e as secretas alegrias
por entre os escombros do tempo

me sento à beira dos dias
como se fosse de um precipício

lavando as tatuagens
qual indício ou escória
que por tanto as lavar
quase me sangram a memória.

Meu poema final




Ponto final, não escrevo mais!
Podem perguntar, explicarei
A escrita não mais me satisfaz
Ela morreu, longe do apogeu.

Picotei todos os papiros
Sabotei as anotações
Juro pelo ar que eu respiro
Não quero ter mais inspirações

Fui no fundo do poço
E lá só encontrei moedas
Parei de roer o osso
Queimei papéis e quebrei canetas.

Não mais conjugo verbos
Não me preocupo com pontuação
Digo adeus para prosas e versos
Rimas, só de ocasião

tenho o atestado de óbito
Já mandei fazer a lápide
Quero letras garrafais
Escrito em braile e hebraico
"Minha escrita aqui jaz"