17 fevereiro 2015

A ARTE DE SER FELIZ






Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

26 janeiro 2015

Pensamentos, Poesias & Fantasias


Porque não recolher
todos os pedaços
dispersos
e todos os reversos
no trágico palco
de nossas perdas
e, verticalmente
assumir como derradeira
a nossa outra metade
ainda inteira ?

16 outubro 2014

26 agosto 2014

CIDADE


Que será do homem
que não sustenta
a sua fome
com pão, leite, feijão e ar?


Nada é menos livre
do que a fome
que mata o homem
e nada é mais livre
do que a palavra
que a revela
sob o sal das horas


Que será sob a cidade
do homem
onde não há lugar
sequer às letras noturnas do luar
aos peixes claros da alma


Que será do menino
que vive nele
a idade é mineral
emocional
e o tempo
esse cadáver embarcado
nos enche de mau
cheiro e de morte
a nos salvar


a música da esperança
o eterno pássaro
de nossa herança


Que cidade é esta
que nos cerca de luzes
mas apaga o feltro
de nossa infância
a febre de nossa voz
e deixa-nos ancorados
às esquinas
fotografia de fumaça e neblina


Que homem é este
que não se sustenta
que a fome o come
a partir do nome operário

09 julho 2014

Ó mar salgado, quanto do teu sal


 

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Fernando Pessoa

Amar





Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca

06 julho 2014

Acróstico


Presente especialíssimo da amiga Dalva Abrahão,
que também ilustra esse blog com algumas de suas poesias.

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18 março 2014

Mudam-se os tempos






Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.



18 fevereiro 2014



Tudo sem nexo,
Sem sexo,
Sem lástimas,
Sem cor,
Sem dor...
Amanhã de manhã,
Comprarei dois pães,
Pegarei o jornal,
Darei comida aos gatos...
A rotina é uma cortina,
De meus lindos medos,
Ah esqueci a porta aberta,
Volto já...

11 outubro 2013

Ecoando Pessoa

Ecoando Pessoa

Amemos, odiemos, desejemos.Rasguemos o lençol de linho,com que Pessoa quis cobriro perfil de nossa Imperfeição.Que a Morte ouse ser tudo o que é.Na medida exata que se quer e se espera...

03 agosto 2013

16 outubro 2011

Meu Inferno


Meu inferno surge como presas cravadas na carne do predador
Escuridão repentina que me prende em mãos trêmulas
Vontades insaciáveis e pele ávida
Meu inferno me leva ao eterno
Decomposição viceral , éden de vermes dentro de mim.
Salvação.
Meu inferno bebe sangue contaminado da existência
Coagulado de essência
Meu inferno vira tempestade.
Me pega, me leva, me muda.
Eterniza.

Todos caminhos que percorri
Caberiam numa folha
de papel
Todas os passos que dei
Caberiam nas bolhas
dos meus pés
Mas todos desejos que tenho
Não caberiam
nesse mundo



Eu não sou ela,
Ela não é minha,
Talvez seja,
Mera coincidência,
Minha sombra perdida,
Minha pedra ferida,
Minha amante casual...
Um dia fui eu,
Simplesmente...
Porém chovia,
E lagrimamente
Vi-me nu,
Aos olhos dela,
Neste dia a percebi,
De relance,
De canto de olho,
De corpo distante,
Rimos nós,
Aos compassos do tempo,
Aos prantos dos passos,
Aos silêncios das caricias...
Quem seja?
Não sei,
Um anjo dos dias sem ninguém,
Um riso das manhãs tristes...
Uma poesia desgarrada ao vento...
Que importa senão vive-la,
Enfim...


Fome de Vida


tenho fome de vida
vida que me tange
vida que se mostra
vida que quero seguir.
Caminho aparente ao olhar
vontade permanente em mim
assim como o tempo
saudades de futuros gostar.
Eu tenho em mim fome de vida
tenho fome de vida
vida que me tange
vida que se mostra
vida que quero seguir.
Caminho aparente ao olhar
vontade permanente em mim
assim como o tempo
saudades de futuros gostar.
Eu tenho em mim fome de vida


15 outubro 2011

Açoite toda a Sorte


Agora eu escolho os mundos
Como antes escolhia minha sorte
Antes deu um azar de morte
Será que por ter sido tão fundo
Não vou mais correr atrás?

Hoje piso em estrelas
Como antes sorria na natureza
Depois de ser maldito por elas
Como saberia de dizer: de toda a beleza?

Que há neste planeta
Viva, a quem doer,
Pau no cú dos pernetas!

Os que pisam de uma perna só
Quando o corpo pede, e pintam de um tom só, quando a cor não mede

Viver é ser diferente
É pisar na lama
Com os dois pés

Pois da lama
Que existe do mundo
Uma flor do lótus, e bem fundo
Vai vibrar sua alma: que tem mais
Do que três pontas.


09 outubro 2011

sem título


Hei de partir, de fato
quando cansar de ser performático
No teatro da vida
Mas há quem duvida
Que sou casto
E que meu ser vasto
Não encontrará a saída
Mas me demito
Do meu corpo imaculado
Títere, mártir, mito?
Quero ser platéia
Quero ser palco armado
Expor a ferida
Ser a besta parida
Do ventre farto da miséria
Manchado de sangue cálido
Inválido, esquálido
ou apenas idéia
perdida...
Quero ser o choro verdadeiro
No momento derradeiro
Da peça em cartaz
Da vida que jaz
Pelas mãos do titereiro
No movimento certeiro
A mover para frente e para trás
Meu rosto moldado
E a boca calada
Num gesto calculado
Desfaço a corda atada
Bailo no ar
Brejeiro...
As mentes castradas
E os olhos vidrados
Não me dizem nada
Do último ao primeiro
Não me engano mais
São todos iguais
Quero agora o mundo inteiro


Volta


Foi no limite de uma terra cáustica,
Dentro da zona do silêncio,
Que o teu corpo se desprendeu do meu.

Fui consagrada à eternidade,
E a sua solidão.
A voz que continha as palavras
Sacramentaram o meu coração,
Rezando sacrifícios.

Vi a transparêcia da distância
Que nos habitava.
Aquela parte, que nos ligava como um,
Perdeu-se na ilusão dos dias,
E a tua alma levou a minha.

Fiquei vazia como uma casa abandonada,
Por isso te peço:
Volta antes que a colheita se perca,
E a terra se torne envelhecida.

Volta a regar meu campo com tua alegria.
Traga teu corpo de frutos enlouquecidos,
E preenchas os espaços onde escureço.
Sê água lírica em minha boca,
Antes que meu sangue comece
A escrever nossos nomes.