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26 janeiro 2015

Pensamentos, Poesias & Fantasias


Porque não recolher
todos os pedaços
dispersos
e todos os reversos
no trágico palco
de nossas perdas
e, verticalmente
assumir como derradeira
a nossa outra metade
ainda inteira ?

27 setembro 2011

"POEMAS BREVES"


Gosto dos poemas breves
como se fossem instantes
bordados a emoção
...
Gosto das palavras
respiradas
mordidas grão a grão
Pólen! Semente ou Pão!

Gosto dos poemas breves
Prenhes de ansiedade
como um ato de amor
interrompido pelo sono

no útero da liberdade


26 junho 2011

"PRESENTE"



Não há promessas
nem futuro
entre nós.

Apenas o presente
.
Nada de compromissos,
apenas uma dádiva gratuíta
que nada espera, nada exige.

Não há projetos em comum,
somos apenas duas pessoas
que quase se desconhecem
e, por instantes se encontram
na vertigem do presente.


"PARA NÃO DIZER ADEUS"



Apenas mais uma palavra
declinadamente nua
me despedindo da lua
lhe devolver o sangue,
os morangos não colhidos
e a gémea confluência
da memória dos sentidos



22 junho 2011

POEMA INTERMITENTE



Tuas caladas mãos
desenham gritos
infinitos nas crateras
da minha existência

Não acenam, nem acariciam
a dor desta saudade

Sinto o furor
de uma angústia surda
por não poder libertar
a rasgada espuma dos ventos
sobre meu corpo de náufraga.

Meu trono é de solidão
e de incerteza
ainda que a leveza desta mágoa
seja como a água
que indelévelmente
separa o cordão umbilical
do sémen da esperança
que teima em nos habitar.
E
nem as palavras
seguram mais o dique
impetuoso
do dia a dia
do nosso querer
pleno de intermitências

15 junho 2011

TEMPO DE GIRASSÓIS



Sob o altar da tarde
se incendeiam labaredas
fogos, incensos e canticos
num despique entre pássaros
grilos e homens

e,
antes que o crepúsculo
tombe sobre a terra
se erguem em mística oração
girassóis gloriosos
e radiantes em sua prece
interminável

Pura ressonãncia do tempo
de telas, de ânsias e de fontes
ou
o admirável silêncio
dessa flor adorável
que em volta do sol
Gira misteriosamente
Gira!
Gira!
Girassol


Roubar-te



Quero roubar o mel 
dos teus olhos 

pintá-los de violinos 
e escutar neles  
o som dos deuses, 
avé-Marias e sinos 
na catedral do coração 

Prender teus pulsos finos 
algemados em meu corpo 
e teus cabelos cheiros. 


Respirar a lua e a noite 

pura evasão dos sentidos

06 junho 2011

FELICIDADE



A vida é sonho
e sombra e sal
que incansavelmente 
perseguimos.

Pelo sonho choramos
e por ele sorrimos
quebrando a rotina dos dias
nesse rio interior de cristal
a que chamamos felicidade
ou
momentos de jasmim

Só a memória mais tarde
se esgota num tempo sem fim


03 junho 2011

"INSTANTES"


Entre instantes
cansados
e
sem destino
a saudade
navega
por dentro do tempo

e
no cais
onde os adeuses
se esqueceram
de acenar,

os pássaros
esperam asas
para voar.


17 maio 2011

"CÂNTICO AO AMOR"



Quero 
cânticos como risos de criança,

pingos de luar
ou
pedaços de sol
ferindo em jorros
a fome de luz
que na alma carrego
em forma de cruz.

Quero 
a quinta sinfonia
num bailado fantástico
e a alegria 
mormurante das fontes
da minha aldeia.

Quero um rio!
Quero um mar
ou
um corpo deslizante

Impaciente 
espero esse dia

Meus pés
descalços na areia
pura ressonância de alegria


13 maio 2011

É URGENTE PARTIR


Meu coração
aprendeu a viajar
todos os dias
em combóios fantasmas
que choram
pela noite adentro.

É urgente partir!
É preciso ficar!

01 maio 2011

MELANCOLIA"


Meu regaço está vazio

duma eternidade por preencher

Que fazer
...com esta solidão?
Que fazer
com esta saudade?
Que fazer
com este amor?
Ensina-me as lágrimas!
Explode-me o vulcão
aglutinadamente calado
como um punhal extenuado!
Devolve-me a paz
desta ferida melancolia.
Porque
onde jaz a rosa,
se ausenta a alegria.


20 abril 2011

"UMA CANÇÃO SEM AMOR"



Me vens namorar
com uma canção cigana
de ouro sujo.

Me acendes o peito
com a frescura do teu cheiro
a terra molhada!

entre os dedos do teu corpo
se espetam juras-fagulhas! Fogo!
como se de novo me parisses
em cada madrugada

Rasgo as linhas da tua face
como lágrimas grávidas
jazidas sem voz
adormecendo
numa sargeta estropiada


04 abril 2011

"CONCEPÇÃO"



O gesto que amasso
no barro das minhas mãos

emoção, dor e espaço
esventrando a praia-mar
gritada de silêncio

Os astros e as vozes
calando o verbo
que em tempos foi verso
no beiral das minhas janelas

A raíz ainda perfura
a terra e as flores
brotam vermelhas
como morangos

percorro as formas
lambendo o barro

num gesto que consinto
num sentimento que foi

Algures, a lua arranha
este momento em que
sinceramente
confesso que minto.



"MEU REINO"



Já passei fronteiras 

que doeram demais
para além do limiar 
e do sentir

Fui cigana 
de sinas consentidas
e
vi morrer o Sol
em muitas vidas

Hoje
sou a senhora do Mar
onde o verso
por vezes vira reverso
Sou a senhora de mim
A minha escrava
e também Raínha

Me conquistei
à custa da dor
e o meu reino
também foi de Amor.

03 abril 2011

"HABITAR O VENTO"


Meu navio 
é habitar o vento
no invísivel tempo
de não te ter

Viver no templo 
vazio e ser
coração de pássaro
no relento

Enquanto do outro lado
lá no deserto,
nem um oásis desponta
de vibração 

E o vento morre parado
estagnando de silêncio
o pólen na tua mão

20 março 2011

"EM DIA DE POESIA"

Meu compromisso
não e contigo.

É com a memória dos poemas!
É com as palavras que já esqueci!
É com as velas de todos os barcos
em que não parti!
É com os murmúrios do vento
e com as preces que não rezei!

Eu,
que ansiei a opulência
dos beijos
me quedei em omisso
compromisso com meu corpo

"APAGARAM-SE AS VELAS"




À noite já não se acendem
as velas no teu altar
e assim,
nos vamos morrendo
em corredores de silêncio
onde a lembrança
é como um punhal
subitamente espetado
no coração da esperança


No quintal do meu inconsciente
estão ainda por dizer
as palavras e as confidências
do tempo em que era possível
brincar sonhos sem cadeados

Lá onde a liberdade
era uma cálida festa de Verão
e a emoção se soltava
impetuosa de nossos dedos

Havia pólen nas tuas mãos
que o tempo espalhou no vento
temo o fisco da morte
degrau a degrau e tão lento
como a eternidade
olvidada em qualquer momento

Apenas e... indelevelmente
.

MULHERES

Mulheres Protestando
Di Cavalcanti



Mães!
Amantes
úteros palpitantes
de vida e de alegria

Mulheres
operárias, camponesas
na luta do dia a dia

Mulheres musas inspiradoras
poetisas e escritoras
escrevendo com sangue 
seu espaço
entre os eternamente vencedores

Mulheres da vida
à beira da estrada
Vencidas, castradas
Vendedoras de amor

Mulheres da noite
como madressilvas
desfloradas

Usadas, abusadas
e lambidas
com coroas malditas de pranto

Mulheres esquecidas
em camas sem amor
onde da vida o encanto
é apenas um sonho de horror.

Num mundo onde o sonho pula e avança,
Mulheres-Mães!
Mulheres-Amantes!
úteros de vida e de esperança.