07 agosto 2009

Leuqar



Roubei uma conversa quando estávamos a sós entre muitos
Armei meu bote, como que se fosse um estrategista
Quebrei meus sentimentos carnais naquela noite
Um sentimento amador apareceu
Eu fiquei confuso, louco
Labios rosados me deixaram apaixonado

Eu nem pude me defender de teu encanto

Foi assim, precipitado
Como sempre me apaixono.

Marinha




O barco é negro sobre o azul.
Sobre o azul os peixes são negros.
Desenham malhas negras as redes, sobre o azul.

Sobre o azul, os peixes são negros.
Negras são as vozes dos pescadores,
atirando-se palavras no azul.

É o último azul do mar e do céu.
A noite já vem, dos lados de Burma,
toda negra, molhada de azul:

- a noite que chega também do mar.


02 agosto 2009

Azul




Meu azul é bebê
É marinho, escurecido, manchado como uma múmia enfaixada de bolores
É a transparência vítrea das lágrimas que não refletem nada
Apenas gritos de origens e sensações profusas, com significados únicos evaporando
Em um turbilhão
De muitos azuis diferentes zanzando pelas paredes de fumaça se chocando em
Explosões
Êxtase sinestésico, paranóico, diluviano, jorrando luzes como uma cascata
Fogos de artifício de aquarela desbotando e resbotando aromas entorpecentes, macios, hipnotizando alguma parte do corpo que não sei qual
Tudo flui rebolando pelo ar sensualmente como suco de sucuri

Meu azul é o céu
Do dia, da noite, da esperança e da queda, da desilusão
É a aura, por mim mística, da lua
É os sussurros que se rastejam pela neve
Cochichando enigmas sem se preocupar em resolvê-los
Amontoando flocos de vidas e vapores desconexos
Despencando miragens que parecem trincar o chão e levar, avalanchando, todos os dias
Que se esvaem como fantasmas
E ficam como fantasmas
Querendo resolver assuntos pendentes

Meu azul é pálido como um esqueleto
E quente e vivo como um grito do sol dentro da água do mar
Ricocheteando nos peixes algas moluscos mamíferos micro e macro vidas que valsam pelo ar líquido, caótica
E graciosamente

Meu azul se engole e se vomita
Morre e nasce periodicamente
Com o estrondo imaginário do Big Bang
Meu azul é água que incendeia
É sorriso que desespera
É um suspiro que berra
Meu azul é preto vermelho branco rosa amarelo verde marrom
Todos de uma só vez
E sem contraste,
Somente nuances leves de uma mesma pincelada...
Em diferentes focos diferentes visões
Meu azul transcende a si mesmo.

Amor Bem Tosco





Mil rosas soltas em seu berço
Espinhos soltos em meu peito
Coração chora controversas
Amaldiçoa sua sorte
Não vê a hora, mas teme a morte


Chuvisca forte em minha alma
Sem previsão de sol em tempos
A umidade ja enferrujou
As engrenagens de minha coragem


Jardins serenos sem serenata
Chamusca forte sem fogo algum
Apenas morre a cada instante
Sem sua ajuda, amor nenhum

Meus sonhos cravados em minha testa
Tudo tão irrelevante
Marcado em baixo relevo
Está dificil de decifrar

Sorri azedo para o espelho
Chinguei de morto o meu reflexo
Que me mandou ir ao inferno
E recompor-me deste amor

Foi só mais um
Como tantos outros
Amor sem fundo
Amor bem tosco


No fado de sua canção



Todas as suas cativantes palavras
Assim que chegam como se não chegam
E falam coisas que ninguém diz
Essas doçuras de aprendiz plena
E plenitude do nada
Ilumina um sábado
Põe fim na aurora de uma sexta

Toda essa sua prosa
Toda essa sua poética
Toda essa capacidade de falar
Ilumina com cores negras de destruição
A minha magnólia dialética

Dessa sua boca
Meio mundos passam
Meio mundos se perdem

Dessa sua boca
Um copo meu cai
E se fundem os cacos da minha individualidade
Para formar uma coisa só
Uma coisa perfeita

Desse imenso vasto mundo
Aonde nunca iremos conhecer
Que estrada nos mostra o amanhecer?
Que imensidão revela tão devasso prazer?

Dessa luz que chega
E ilumina e nos faz cantar
E cantamos sem cantar
E vivemos sem viver
E sorrimos sem sorrir
E somos nunca sendo
Firme e forte
Para si mesmos...

Interpretação




Interpretar:
Sair de mim mesma
Viver outras vidas ou quem sabe
Descobrir quem sou
Representando a mim mesma
E já fazendo arte sem saber
Interpretar:
Inventar quem sou
E descobrir quem são,
Através de minhas interpretações
Beber-se a si mesmo sem sede
É a vida

Lua Implacável




Vem, Lua das minhas delícias!
Meu grito flutua na boca desse céu
Sem limites.
Meu coração bate apressado
Maquinado pela força dominadora
De meu gozo oceânico.

Essa sensação urgente de maré cheia,
Que vai se espalhando,
Pelos terminais de dois corpos
Caminha sob ondas tensas,
Para uma praia escaldante.

Flutuamos sob ondas de espumas.
Perdidos na tormenta das delícias.
Lençóis de algas embaraçam
Nossas vidas,
Numa dança tempestiva de carícias.

Sobrevivemos nessa ancoragem louca,
A essa Lua implacável de delícias,
Que fica escondida bem no fundo,
No horizonte perdido de uma concha.

Meu Medo




O medo que tenho
É de nunca me apagar,
Medo do começo,
De nunca poder parar.

Medo da chegada hostil,
Da flor que evapora.
Do perfume que fica
E que não vai embora.

O medo que tenho
É da lembrança infinda,
É de estar para sempre
Como alma perdida.

E quem ganha afinal ?


Em todas as esquinas
Existem vencedores e perdedores
E aquelas que pegaram o bonde
E aqueles que o deixaram passar por estarem chorando

Em cada rua tosca
Há essas pessoas que ganham da gente
E que perdem da gente
Nessa luta incessante
De ser ou não ser por qualquer coisa

Em cada fábrica
Há aqueles que estagnaram na linha de produção
Que na hora de por as tampas nos copos
Pensaram na beleza dos copos
Ou como é subjetivo esse negócio de tampa
De passar ou não passar o ar

Em cada briga por balas
Por ideias, por pessoas
Há aquelas pessoas que não quiseram brigar
E perderam
E aquelas que foram até o fim
E mesmo perdendo
Não se acham como tal
Pois perder é tão subjetivo
Fomos até o final ou não pomos os fins nos meios...

Em cada rachadura de sua face
Por cortes e cicatrizes
Estavam as suas unhas na minha pele
A sua emoção
A sua raiva
A sua decepção ante o mundo
O nosso porre das emoções que nos fazem ganhar
E perder e ganhar
Ganhar ou perder nesse não vasto mundo
Tão vasto

Já passamos do ponto disto
E voamos para as estrelas e voltamos
E dissemos loucuras para um astronauta
E visitamos o sideral de seus olhos
Encostados nos meus
Numa noite em que nunca me esqueço
Mais que vivo a querer esquecer
Que nunca me esqueço

Fomos a outro nível
Invadimos cidades
Distribuimos panfletos
Brigamos e perdemos
Amamos quase sem querer
E quase sem querer se foi
E deixou uns rastros
De vitórias e derrotas
De vencedores com suas batatas
E perdedores com suas armas de ferro

Tudo que as pessoas disseram
E continuam dizendo
E a humanidade se repete incessantemente
Nos causa tédio

Ganham ou perdem
Prosperam na inercia de querer mais
Ou morrem na inércia de ter pouco e querer mais ainda
Se adivinham em lugares que não há
E vivem num eterno retorno ao que nunca foram

Não
A esses dias
Vencemos e perdemos
E nos importamos tanto
Mas tanto com o mundo
Que perdemos dele
E vencemos com a mesma moeda
E da vitória
Não nos importamos
Deixamos pra lá...



01 agosto 2009

Painel noturno




É cinza de dia
É cinza de noite
Ah! Mas de noite temos as luzes
Brilhos como que mágicos, fosforescentes
Borbulhando pelos ares de nossa cidade
Indo e vindo, tilintando cores ofuscantes
Clareando, seduzindo, iluminando, produzindo
Faíscas e fagulhas místicas, hipnotizantes
Que oscilam fanatsmagoricamente como um sopro
Um feixe
Um jato repentino de partículas iluminadas extravasando energia
Elétrons e prótons colidindo em nuvens de combustão, se consumindo
Sumindo na atmosfera palpitante
Frenética, arquejante
Da metrópole

Poeiras estelares que sobem todas as noites
Embalando cores doloridas e atraentes
Sugadas pela própria unanimidade
Confusas em tanta organização
Receosas com tantas opções
Sem certezas
Se esvaem sombriamente
E afinal,
Sucumbem à luz da Lua.

31 julho 2009

MINHA ESCRITA




Peguei a caneta
Minha lança verdadeira
Comecei a rabiscar
Coisas sérias, besteiras
Algo triste, algo alegre
Frases simples, outras não.
Dia a dia me persegue
Sublinhando a solidão

De tanto escrever verdades
De tanto nelas acreditar
O papel é paisagem
A tinta um pássaro a voar

Junto as letras, formam idéias
Junto idéias, meu viver
Os meus passos, centopéia
Me levaram a escrever

Uma paixão inofensiva
Difundida no querer
Muitas vezes explosiva
Jeito alegre de sofrer

Sofrimento prazeroso
Pessoal e corriqueiro
Muitas vezes saboroso
Doce, brigadeiro

Nas vogais, nas consoantes
Nos acentos, nos acertos
Bem melhor do que era antes
Apagou o meu sofrimento

A Tecelã




Minha juventude parte com dentes cerrados.
Riscam meu nome do livro das armas.
Entrego-me às chamas rodopiando convulsa.
Língua acelerada lambendo um medo atávico.

Vou retorcida, esmigalhada pela foice negra.
Instalada em manto de morte abraço meu inverno.
Sigo na aridez da noite, que marca o fim das horas,
Evoco o começo de meu tempo de borboleta menina
E sou devorada pela luz das chamas.

A tecelã do destino sopra em meus ouvidos
Sua fúria invernal.
Deito nesse espaço preparado
E renasço numa nova vida,
Sem nunca ter entregado meu coração.

Rapunzel




"Modelo R-527SFX
Resumo: defeitos de fabricação
Armazenado para análise no depósito
Reparos pendentes"

Marchando todos em fila
- Aqueles olhos nos observam
Andando com estranhos pelas ruas
De mãos dadas
- Nossos olhos estão desligados

"Incapacidade de adaptação
Comportamento agressivo
Recusa ordens
Não reconhece seu superior"

E quando um grito parece quebrar o silêncio,
Um silêncio mascarado por um cardume de sons desconexos,
As portas se fecham
E o chão de metal é frio

E quando um grito parece quebrar o silêncio
Você está ficando louco
Deixe conectarem os fios em sua cabeça
Transmissão de dados...
Como, onde, porque.
Download completo!

Pelas grades da janela
Aqueles olhos observam
Não há tranças:
Seus cabos elétricos foram cortados
E de longe, aqueles olhos sentem
O frio do calor comunitário
O frio de sua cela de metal

"CASA DESFEITA"




A casa já não está arrumada
como outrora.

Agora,
privada de mastros...

Os ratos róiem as dúvidas e os trapos
entre apodrecidos degraus

Também a cama está
desfeita em cruz
sepultada no silêncio
estridente
da tua falsa bandeira

Consumiram-se os astros
e os sonhos
numa ribeira sem nascente

e
as janelas foram aprisionadas
na luz irisdicente
da tua ausência
sendo agora refúgio
de aves cegas,
feridas e sem asas

Calejada



Eu procuro bocas
Para falar por mim
A minha está calejada
Não distingue mais
Doce de salgado

Tudo o que por ela entra
Tem gosto da mesma coisa:
Gosto de coisa nenhuma
E nada mais nasce por ela

Eu procuro maneiras
De que alguém viva por mim
A minha está tão consumida
Que já não distingue mais
Alegria de tristeza

Tudo o que por ela embarca
Tem gosto da mesma coisa:
Gosto de sempre ser a mesma coisa
E nada mais vem ao mundo por ela

25 julho 2009

Olhar



Rapidamente crês
no desmoronar do mundo
em frangalhos e pedaços e estilhaços.
Mas não vês o absurdo do abraço
que recusas,
do beijo que escasseia em ti,
do alimento da alma que é o néctar faceiro,
Porque não estás mais nas ondas do rádio.
Não estás com sorte.
E se pensas insistentemente na morte,
é o tempo,
este verdugo,
que te abocanha a senha,
que te rouba as chaves e por certo,
esperto,
te amotina.
Eu vim de longe prá te ver inteira,
vim como um lábio
prá soprar teu rosto e admirar teus olhos.
Faça as contas por dentro
lendo o livro da vida,
beijando,
e faça planos ligeiros.
Aquece tua alcova agora,
eu vou primeiro.

21 julho 2009

Desideratum






Não deixarei recordações
de instantes matinais.
Desconsiderarei expressões inconseqüentes.
Legitimarei o orgulho apunhalado.
Não ignorarei meu amigo imaginário.

Não embalsamarei meu coração a qualquer maneira.
Meu sangue, não jorrarei às ribanceiras.
Conduzirei minha alma, mesmo amargurada;
pelos atalhos de estradas minadas,
sem o temor de ser estraçalhada.

Graças à tormenta efêmera do tempo,
renascerei num eclipse solar.
Nos encantos dos meus etéreos anos,
destinarei solidariedade
às estrelas que invejam a minha luminosidade

Criarei asas e voarei alto;
Irei muito além das colinas mais inóspitas.
Peregrinarei pelo universo paralelo.
Sobre a Terra e as nuvens mapearei meus horizontes.
E purificarei minha alma que jazia .

E toda vez que o sol se pôr;
Sonolenta dormirei nas florestas encantadas.
Renovada, migrarei em busca de novas eras;
Seguindo luzes que driblam o caos
- Extasiando a atmosfera.

Foi-se embora impiedosa agonia.
Darei vôos rasantes nas águas do Lago Ness.
E o monstro invencível e solitário que habita adormecido,
acordará feliz com meu mergulho há tempos esperado.
Já que minha desiderata presença,
- será sua confidente eternizada...

Herança


.
Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiências, ou consolo, ou prêmio alcançarão?


Cecília Meireles

16 julho 2009

Cepa



Casulos da memória,
reflexos,
transtornos do aqui e do agora,
o que alimenta o homem
demora.
Curte a seco a carne esponjosa,
criptografa.
Em segredo disseca a alma
e retrai,
Sem apego trai no tempo,
contrai.
Andei por mais de duas horas.
Andei no sabor das promessas,
na inconstância
de um ledo sonho
obtido,
um dia.
Apagou-se-me nas entranhas da memória
o comprimento das falhas,
do traço do fardo
do humano saber,
da frequência dos sinais
da mandala.
Losângulos encarnados
semeei.
Crisântemos.
Carreguei as pedras das doze taipas
alucinadamente absorto.

O solo bruto, arei.
O solo estéril,
vincando o chão.
Cobri de plantas o final do mundo
de espinhos.
Sepultei bem fundo
todo o cosmo da razão.
Em fusão
eu fui sem ter sido
por vezes,
captando apenas
um lado obscuro.
Purguei os pecados do dia,
de dia,
descansando a noite,
quase sempre entre feras,
e entre elas,
por elas,
sem sossego.

Branco no Preto


Afiada a faca, corto o rebordo da alma
Grita para ensurdecer o amor
Com absoluta calma enterro o rancor
Um silêncio invade o local

A janela se abre
O clarão do dia aparece
Sentimentos ruins vão se esmaecer
A felicidade toma lugar

Me ponho a escrever
Pensar, anotar, viver
Me ponho a questionar
Como, quando, o que.

Mas vem novamente a penumbra
Absoluta certeza de um "desunir"
Largo a caneta e as idéias
Agora minha hora de sucumbir.

13 julho 2009


Abri bem meus olhos e não vi um palmo à minha frente.
Abri bem meus poros e não senti o suor escorrer pelo meu corpo.
Abri minha boca e não senti as palavras tocando meus dentes.

Dentes trincados
Corpo entupido
Tempo parado
Carniça que paira.

.........................

E quando fechei meus olhos
Senti
a água que escorre quente.
Vi
Além do palmo
além do vento
além dos podres
além das árvores
além do calor
além da humilhação e do orgulho
além das flores e do paraíso

Cores e gostos que sinto quando o líquido queima
cores e gostos que sinto quando fecho os olhos.
Quando me desligo
me deixo
me liberto
me livro
Grito

12 julho 2009

O Cristal Negro



Procurando alguma coisa em mim
Abro a velha caixa de jóias
Dezessete anos bem escondida

Querendo uma resposta ou uma pergunta
Assopro a poeira
Lembranças cambalhotam pelo ar
Girando anos todos em segundos...
Olho a caixa inteira
Uma pedra atrai o meu olhar
Fisga meu desejo e o atiça
É a mais fácil de pegar
É a que brilha mesmo sem brilhar
É meu cristal negro.

- Não há com o que se preocupar
Ele me diz
Não, não há
Seu mistério lustroso me hipnotiza
Sua escuridão ofuscante me cega
E os dias rolam ladeira abaixo
Os sorrisos passam despercebidos
As minhas perguntas morrem antes mesmo de terem nascido
As respostas são sempre as mesmas
Grasnadas pelas sombras dos corvos que vagueiam dentro
De meu cristal negro

Cego, ensurdeço, emudeço?
A quem pergunto?
Ao meu cristal negro
A quem aguardo?
Meu, meu, meu
A quem obedeço?
Ao meu cristal negro
A quem eu morro?
Meu, meu, meu
A quem de meu ser eu vivo?
Ao meu cristal negro

O coração para mas tenta lutar
A respiração esvai sem se deixar levar
O cabresto cobre meus olhos...
Mas sem me cegar

Minhas pálpebras desenvelopam o véu imaterial
Meus olhos
Minhas mãos escorrem pelo meu rosto e tiram a venda
Se abrem
Minhas razões não se limitam mais em cubículo
Esvoaçam estrondos rompendo rombos chocando chutes lutando ilustres
Trincou-se meu cristal negro.

Pois os pombos cantam quando querem
E se o sol sai, foi por sair
Trincou-se meu cristal negro.
Pois floresce apenas quando dá
E se me sorriem, posso sorrir
Trincou-se meu cristal negro.
Pois vejo mãos que se oferecem
E uma escada que eu fingia não existir

Procurando tudo em mim e fora de mim
O eu que não está aqui
E tudo e todos que me fazem eu
Abro a velha caixa de jóias
Beijo e guardo meu cristal negro
Junto com todas outras pedras
Que sempre carregarei dentro de meu coração

Sou presa no que sou


Sou presa no que sou caçada
A minha criatura não é freguês
Deste prato-mundo restrito

Vive no mundo
Das infinitas probabilidades
Não sou cega
Porque a criatura não tem olhos
Não sou manca
Porque a criatura não tem pernas

No mundo onde co-existo
Não sou porque não estou
Não vivo porque não morro
E, assim, sem fim...

E você não entenderá
Porque é doentio se matar tantas vezes
Para se salvar tantas vezes...
Repleta de bondade e interesse, uma vaidade.

Se eu decorar as minhas falas
Vou ser profeta de mim mesma
E eu não quero discípulos
Não quero ser mestra.

Dá-mes um verso
Tira do berimbau uma lira
Dizes a encontrar um porto
Ao menos uma ilha
Fales com o timoneiro
Desce-me a alma pelo convés
Diga que não irei a pés
Dá-mes um verso
Farei um barco de esperança
Para tentar não naufragar
Nas águas da desiluzão

Quero Demais


Com uma caneta
Crio fantasias
Sou parabenizado por tal obra
Mas sinto triste

Pois é tudo
Minha obra
Fantasia

Com minha mente
Crio mundos
Sou chamado de louco
Por estar fugindo de uma realidade que não me agrada

Em meu sono
Vivo o passado
Me considero um tolo
Pois a vida não se realiza com o que ja foi realizado

Quero viver o mais rapido possivel
Mas quero viver cada segundo
Quero saber o que tudo isso significa
Mas quero ignorar a importancia de tudo
Quero morrer pra saber o que virá
Quero viver pois tenho medo do desconhecido
Quero você pois ja conheço a sua voz
Preciso conhecer outras vozes para dizer que vivi

Velho Mago

Naquela caixa
Estão minhas cartas
Cartas velhas
Centenárias

Escritas a mão
Por um velho amante
Repugnante
Repugnado

Naquela caixa
Estão meus poemas
Os mesmos versos
Centenários

Naquela estante
Estão minhas fotos
Com minhas amantes
Com meu passado

Naquela casa
Está minha infância
Que morreu e muitas decadas
Sem que eu percebesse

Naquele corpo
Jazia a mim
Um velho mago
Comberto de lágrimas e jasmim

No coração de alguém
Não morrerei
Pois serei eternamente
O presente
O amigo
O amado

Choroso e Pomposo

Soam cordas de um violão
Choroso e pomposo
Variando entre a alegria e a desilusão

A cada colcheia
Sentia uma pontada
Sentia uma facada em meu coração

Aquela escala tinha seu nome
Os intervalos eram sonoros
Nos instantes de silencio entendia o recado
Que aquele violão não seria mais usado

Tambores tocavam em tom de trítonos
Tremores tenores de tons demorados
Deixando tomarem-nos dentro de tudo
Tocando devaneios terriveis
Dixando a tristeza tomar-lhe
Tirando a demora de bonitos acordes

Soam as cordas de um violão
Choroso e pomposo
Variando entre a alegria e a desilusão

Jamilah III

Vejo a cor púrpura do horizonte,
A Imensidão do azul celeste,
Te amo mais que ontem,
Te desejo minha flor silvestre.

Olhos intensos e cativos,
Boca rubra e delirante,
Teu amor é meu incentivo,
Teu corpo meu diamante.

Tuas curvas reluzem com meus beijos,
Tua boca me mata de desejo.
Seremos um só corpo em erupção.

Dance para mim nesta noite estrelada,
Dance, entre o céu, a serpente e a espada.
Sinta que o que sinto esta além da razão.


Márcio C. Pacheco

24 junho 2009

10 junho 2009





Só mais um tempinho,

dizes, como se o século

compreensesse diminutivos.

04 junho 2009

Caixa de Papelão



Troco suas mil palavras por um abraço
Deixo de lado suas cartas para poder te beijar
Desligo o telefone e subo em um ônibus
Faço de tudo para poder lhe acompanhar

Ouço mil promessas enquanto penso nas surpresas que lhe farei
Canto versos lindos escondendo o buquê de rosas
Corro 1000 quilometros tentando chegar antes de você
Para que eu possa te mostrar aquele vestido
que você sempre quis comprar.

Mas nem tudo são caricias
Nem tudo é amor
Nos conflitos do dia a dia
Quero te mostrar quem sou
Sou um amante cruel
Enciumado e venenoso
Vingativo e curioso
Sou como qualquer outro apaixonado
Amando

Crio espectativas de ouvir de você palavras vãs que lemos em livros
Não aas ouço...na verdade...não as quero

Quero-te apenas para saber que existo
Quero-te somente ao meu lado
Abraçados
Esperando a vida acabar
Aproveitando o tempo que nos falta
Sem importar o lugar

É eterno
Para sempre...eterno
E se talvez, no futuro, isso venha a acabar
Saiba que de uma forma ou de outra
Será eterno...nas lembranças de um porta-retratos
No fundo de uma caixa de papelão
Isolada de mim a alguns anos...quem sabe até decadas
Mas o passado, não existe...existe o presente que,
constantemente muda
E nos deixa acompanha-lo onde quer que vá

-Queria...Vamos tirar uma foto?

03 junho 2009

Querer é poder




Afogando a imaginação brutalmente
Dentro de um dilúvio de desejos
Posso não saber o que quero


Afagando os pés com a grama do campo
Sento na terra e pego uma flor
Mas não é da mesma cor que as outras
Então finjo que não quero


Atracando as sílabas decisivas na boca
Sobram os olhos suplicantes
Inúteis globos nessa situação
Lento o momento se acaba
E eu finjo que não queria nada


Apalpando os sonhos e vontades
Que começam a rasgar o peito para fugir
Enquanto me chamam de idiota
Sinto que falta um rosto
Que o desejo não foi suficiente para criar
-Eu o quero


E o que faço?
Espero cair do céu!


Benza Deus!
Podisperá na cova, palhaço
Esmero e força ponha nesse aguardar
A única coisa que vai conseguir
É se borrar

02 junho 2009

Carta de alforria



Debruçado na janela
Olho o céu, esperando os raios de sol
Aguardando ansiosamente por alguma coisa
Que finjo não saber o que é

As palavras ficam enterradas na garganta
Os olhos encobertos de remela
E os sonhos mumificados a base de formol
Extenuando até a última gota as esperanças
Num delírio que recria todo dia a fé

Malditos dias estes!
Vão embora, vão tarde!
Eu agora quero novos dias

Eu quero
O dia em que não vou mais desejar
Que o vento te sussurre os meus sentimentos
Que as ondas explodam em tsunamis meus pensamentos
O dia em que não vou mais esperar
Que apenas um olhar diga todas minhas palavras
Que apenas gestos vagos me libertem de minhas amarras

Com toda a minha força eu quero
O dia em que não vou mais fingir
Que me entendo e entendo você,
Que prefiro não arriscar e dizer,
Que estou feliz e satisfeito
Em ficar remoendo e deixar doer

Chega!
Chega de lágrimas inúteis
Chega de soluços patéticos
De tristezas decadentes e tímidas
Que se alastram como um câncer
Incapacitante, decepante, atormentador
Que é o medo de viver

Venha, venha
Eu quero e terei
Me esforçarei para alcançar
O dia
Em que não vou mais precisar
Me esconder atrás de um poema para dizer que te amo
Em que não vou mais me lamentar
Pelas coisas que nunca tive coragem de fazer
Em que eu vou agir
Sem atacar ou fugir
Para ser uma pessoa melhor

Eu quero
Eu faço
Eu construo agora
O dia em que vou me libertar
De mim mesmo
O dia em que conquistarei a liberdade
De poder voltar a desejar outra coisa
A liberdade de deixar algum sonho me escravizar
E por ele lutar, sem nunca temer
A arte de viver
E não somente existir.

27 maio 2009

Ponta Seca


Onde finco o pé no chão
Centro a ponta do compasso
Traço um mundo – ilusão –
Coração me foge ao braço!

Linda e louca, uma paixão
Descentrou-me do espaço
A descentralização
Fez-me então ser tão escasso

Um destino à minha mão
Outro longe do que faço
Inquilino da emoção
Vejo flores onde passo

Mas se abraço a solidão
Minha vida foge ao laço
Vivo assim, entre a razão
E um poema que amasso....

Roberto




De vez em quando, eu me arriscava a te esquecer
e quanto mais tentava, menos eu esquecia!
Como um menino, tentando esvaziar o mar
com um pequeno balde, jogando a água na areia!
Quanto mais eu desviava o pensamento, para dissimular
mais eu via o teu sorriso na transparência do vento, a soprar!
Então eu fechava os olhos, me fazendo lembrar
de coisas que nunca aconteceram, em nenhum momento
como quando eu pedi uma cigana, para gravar
o teu nome na palma da minha mão
mas ela disse que não, pois ele já estava lá
embaraçando a linha do meu coração!
E quando eu abria os olhos, eu ainda te via
em qualquer direção que eu olhava, o dia inteiro!
Já vai para o segundo janeiro, em que eu fico assim
me sentindo um pudim, esquecido na geladeira!
Ou ainda um piromaníaco pinguim
tentando feito um louco incendiar a geleira...




Roberto

Lua adversa




Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha


Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.


E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...



Cecília Meireles

26 maio 2009

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?




Cecília Meireles

24 maio 2009



O azul carmim desbota ao tempo,
Segundos passam apressados,
Dois marujos bebem na margem do cais...
Aguardo o trem último chegar,
Ensaio pequenos versos...
Encontro momentos passados,
Tua foto sorrindo na roda gigante,
Nosso caminhar pelos pomares floridos,
Sinto o perfume das flores,
Sinto teu perfume chegando,
Vejo duas meninas abraçadas,
Percebo a lua cheia na clareira dos prédios,
As horas passam, os carros navegam pra longe,
A espera infinita me faz companheira,
Bebo uma dose recostado nas pilastras,
Pichadas,
Procuro seu nome...em vão...
Nossas marcas de outrora foram apagadas,
Corações românticos e juras de amor,
Ficaram na saudade da lembrança...
Meninos brincam de bola de papel,
Prostitutas vagueiam pelos cantos,
Fico imaginado você chegar...
De olhar feito brisa de verão,
Jeito tímido de riso da manhã,
Trazendo na bagagem teus sons a reboque,
Meia dúzia de versos líricos,
Todos lindos...todos absolutos...
Simples dizeres...profundos contrastes...
O trem último passa,
Pessoas se vão..somem na penumbra,
Não lhe vejo chegar...
O trem fica solitário...a estação fica vazia...
O silêncio parece um eterno infinito,
Vou caminhando sozinho,
Esboço um riso a deriva,
Talvez amanhã,
Você chegasse, no trem último...


noiTe

21 maio 2009

Sombras e Poesias




Vento forte que agora sopra,
impiedoso és com as folhas secas.
Amareladas e frágeis se equilibram
num fio de vida que ainda resta,
aresta de um tempo que se fora,
onde o ar clorofilado reinava.


Brisa impetuosa que abala,
sua melodia remete
aos cantos fúnebres de saudade.
Vejo as folhas secas pelo chão,
suas hastes estalam sob os pés,
restos da vida macerado, moído.
Folha que fora, hoje ruído,
do seu triturar, é só o que és.


Aragem que desliza por entre as copas,
a leveza das folhas me lembram
os sonhos alegres que tive.
Mesmo sendo noite, os sonhos luziam
então veio o sol, luz que as sombras dissipam,
que apaga o brilho das fantasias.
Dos sonhos sonhados restaram sombras e poesias.




k4akis

Caixa de Pandora




Pensamentos e pensamentos me atrapalham os pensamentos
Devaneios sobre o passado atrapalham algumas lembranças
Restringindo minha vida a curtos períodos de vida
Onde fico esperando a gravidade ficar contrária


Torço pra que a terra gire no sentido contrário
Que o sol se apague e que a lua me sustente
Espero que os mares cubram a minha cabeça
E que crie guelras pra aprender a conviver em outros meios


Olho para baixo tentando encotrar nuvens
Tenho impressões de que elas estão ao meu redor
Da minha boca saem palavras belas...mortas
Prontas para serem escritas na lápide de um indigente


Radicalmente afastado do mundo
Rompendo a barreira da solidão


E assim começo a viajar dentro de uma pessoa insuportável
Um eu que está começando a me prejudicar
Mas que todos tem em comum


Cada um com sua Caixa de Pandora.


19 maio 2009

Solidão



Solidão é olhar pela janela
E ver a multidão se rastejando
É estar cercado de gente
Ocupada o suficiente
Para não olhar ao seu sorriso

Solidão é nevar durante o ano todo
Aquela geada impiedosa,
A ponto de congelar o fogo
E trincar o coração,
Sem nenhum agasalho para vestir

Solidão é ver as vigas de sustentação desmoronarem
E não fazer nada;
Querer dormir.

15 maio 2009

Eu poeta




Sei que no fundo nada do que eu vejo existe
o mundo inteiro se converge em ilusão.
No descompasso entre a existência e a razão
na minha mão, meu coração bate tão triste...

Sei que não faço tudo aquilo o que eu faria
se por um dia eu fosse eu inteiramente.
Na qualidade de interino permanente
abraço a fraude de viver em poesia...

E nessa vida que eu sei que é provisória
vou emitindo promissórias sem valor.
Num desamor a minha vil mas própria história

escrevo a mim qualquer jardim que tenha flor!
Notoriamente o eu poeta é a escória
da fundição do eu normal e a sua dor.....



Roberto

13 maio 2009




Ainda me restam amores...
Com seus nomes escritos,
Nas bordas das páginas,
Que volte e meia visito,
Para lembrar momentos,
Viveres de ontem,
Jamais esquecidos...
Lembro das brincadeiras,


Dos primeiros beijos,
Nossos segredos,
Nossas alegrias de criança,
Correrias pelas areias,
Fazendo castelos, sonhos...
O mar todo nosso,
A lua chegando a nos acompanhar,
Com seu véu brilhante,
Os pescadores e suas redes,
Estávamos alegres no vai e vem
Das ondas...
Ficaríamos por infinito no tempo,
Assim...
Abraçados, confidentes das caricias,
Sorrindo simplesmente o passar do tempo,
Amigos, amantes soberbos, loucos apaixonados,
Divagando nossas fugazes percepções,
Descobrindo os lugares de cada um,
Seus segredos, seus jeitos,
Nossos sabores...




noiTe

Olhos Castanhos avulsos



O indizível
O irrefutável
Por entre traços doces e simples
De seu sono
Pela força de tantas quimeras
É que dizem tanto
E tanto
Que talvez
O mais dito
As palavras mais fortes
Se tornam
Poemas de amor
Poemas de suicidas
Poemas que trazem
As coisinhas mais simples
Reveladas nesse teu jeito
Nesse teu sono
Nesse poema de paz
Que a nada revela
Mas revela tanto...



Marcel Rei


Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.



Cecília Meireles

09 maio 2009

Jaula


Quatro paredes
Elas falam
Gritam
Gemem
Ao mesmo tempo

Quatro paredes
Elas me cercam
De todos os lados
Sem saída
Há apenas uma porta
Que me traz coisas que não quero conhecer

Amor
Odio
Amizade
Sofrimento

Pra que tanto sentimento?
Pra que tanta satisfação ao coração?

Quatro paredes
Elas são mais que o suficiente
Companhia para a eternidade
Talvez um dia eu as pinte
Só para variar um pouco
Mas só passarei a primeira mão
Se não gostar, posso restaurar a parede antiga

Mas espere...há um furo na parede
Um olho mágico
Mágico olho que observa o mundo
Mágico olho que me mostra ao mundo

Sou um animal
Enjaulado
Preso no submundo de paredes
Num submundo de medos e impedimentos

Vivo dentro de minha razão!

06 maio 2009

Desejos


Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu


Drummond

As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Drummond

03 maio 2009


No nó de mim,
Uma ponta de fio surge...
Se puxares,
Num mero fiapo firarei,
E como poderei eu,
Emaranhar nossos olhares,
Outra vez...



noiTe

29 abril 2009

Travessia



Calaboca não fale mais nada,
eu preciso sumir ou torcer
pra não cair demais e correr
pela rua até sangrar o peito
todo
porque eu te amo,
sem necessidade.
Não tenho vontade, não tenho saudade.
Nada do que você disser vai me convencer
de que nada do que você disser
durante ou depois ou nada mais
vai me levar a crer que te amo.
São palavras complicadas e não sou eu
complicando palavras que não dizem nada.
É o absurdo,
o contratempo de existir entre o entulho,
fagulhas e fragmentos.
O ledo engano que vem,
pragmático,
o trauma, o sono.
Calaboca desta vez não fale mais nada portanto.
Me arranque daqui, do teu jeito.
Pode ser.
Solte este nó que me prende ao leito.
Quero água. Água da fonte,
atravessar a ponte
como qualquer sujeito.


Adonis K.

26 abril 2009

Saudades


Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tivemas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...

Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...




Clarice Lispector

25 abril 2009

Eu Juro




Que não te amo mais
todo mundo sabe,
saiu ontem nas ondas do rádio.

Que tenho dormido bem,
nem sei com quem,
que não viajo mais.

Que meu cão morreu
de colapso
e eu quase fui junto,
assim, de veneta.

Que acabou a emoção de assistir ao teu show.

(é mentira)
Que acabou a grana,
a gana,
o sonho acabou.

Gasolina na reserva,
eis o estágio,
O tempo.
Na reserva de um círculo tendencioso,
Oculto.

Que soube de tudo depois que as portas foram fechadas
todo mundo sabe,
houve previsões.
Luzes apagadas...
Houve um aborto.

Que não bebo mais um gole
sózinho,
que rasurei o mapa da mina,
que venci os degraus da peste
todo mundo sabe,mas ninguém viu.

Nosso mundo, querida,
partiu.
Eu fui de trem,
batendo dormentes.
Você de navio.


Adonis k