16 julho 2009

Branco no Preto


Afiada a faca, corto o rebordo da alma
Grita para ensurdecer o amor
Com absoluta calma enterro o rancor
Um silêncio invade o local

A janela se abre
O clarão do dia aparece
Sentimentos ruins vão se esmaecer
A felicidade toma lugar

Me ponho a escrever
Pensar, anotar, viver
Me ponho a questionar
Como, quando, o que.

Mas vem novamente a penumbra
Absoluta certeza de um "desunir"
Largo a caneta e as idéias
Agora minha hora de sucumbir.

13 julho 2009


Abri bem meus olhos e não vi um palmo à minha frente.
Abri bem meus poros e não senti o suor escorrer pelo meu corpo.
Abri minha boca e não senti as palavras tocando meus dentes.

Dentes trincados
Corpo entupido
Tempo parado
Carniça que paira.

.........................

E quando fechei meus olhos
Senti
a água que escorre quente.
Vi
Além do palmo
além do vento
além dos podres
além das árvores
além do calor
além da humilhação e do orgulho
além das flores e do paraíso

Cores e gostos que sinto quando o líquido queima
cores e gostos que sinto quando fecho os olhos.
Quando me desligo
me deixo
me liberto
me livro
Grito

12 julho 2009

O Cristal Negro



Procurando alguma coisa em mim
Abro a velha caixa de jóias
Dezessete anos bem escondida

Querendo uma resposta ou uma pergunta
Assopro a poeira
Lembranças cambalhotam pelo ar
Girando anos todos em segundos...
Olho a caixa inteira
Uma pedra atrai o meu olhar
Fisga meu desejo e o atiça
É a mais fácil de pegar
É a que brilha mesmo sem brilhar
É meu cristal negro.

- Não há com o que se preocupar
Ele me diz
Não, não há
Seu mistério lustroso me hipnotiza
Sua escuridão ofuscante me cega
E os dias rolam ladeira abaixo
Os sorrisos passam despercebidos
As minhas perguntas morrem antes mesmo de terem nascido
As respostas são sempre as mesmas
Grasnadas pelas sombras dos corvos que vagueiam dentro
De meu cristal negro

Cego, ensurdeço, emudeço?
A quem pergunto?
Ao meu cristal negro
A quem aguardo?
Meu, meu, meu
A quem obedeço?
Ao meu cristal negro
A quem eu morro?
Meu, meu, meu
A quem de meu ser eu vivo?
Ao meu cristal negro

O coração para mas tenta lutar
A respiração esvai sem se deixar levar
O cabresto cobre meus olhos...
Mas sem me cegar

Minhas pálpebras desenvelopam o véu imaterial
Meus olhos
Minhas mãos escorrem pelo meu rosto e tiram a venda
Se abrem
Minhas razões não se limitam mais em cubículo
Esvoaçam estrondos rompendo rombos chocando chutes lutando ilustres
Trincou-se meu cristal negro.

Pois os pombos cantam quando querem
E se o sol sai, foi por sair
Trincou-se meu cristal negro.
Pois floresce apenas quando dá
E se me sorriem, posso sorrir
Trincou-se meu cristal negro.
Pois vejo mãos que se oferecem
E uma escada que eu fingia não existir

Procurando tudo em mim e fora de mim
O eu que não está aqui
E tudo e todos que me fazem eu
Abro a velha caixa de jóias
Beijo e guardo meu cristal negro
Junto com todas outras pedras
Que sempre carregarei dentro de meu coração

Sou presa no que sou


Sou presa no que sou caçada
A minha criatura não é freguês
Deste prato-mundo restrito

Vive no mundo
Das infinitas probabilidades
Não sou cega
Porque a criatura não tem olhos
Não sou manca
Porque a criatura não tem pernas

No mundo onde co-existo
Não sou porque não estou
Não vivo porque não morro
E, assim, sem fim...

E você não entenderá
Porque é doentio se matar tantas vezes
Para se salvar tantas vezes...
Repleta de bondade e interesse, uma vaidade.

Se eu decorar as minhas falas
Vou ser profeta de mim mesma
E eu não quero discípulos
Não quero ser mestra.

Dá-mes um verso
Tira do berimbau uma lira
Dizes a encontrar um porto
Ao menos uma ilha
Fales com o timoneiro
Desce-me a alma pelo convés
Diga que não irei a pés
Dá-mes um verso
Farei um barco de esperança
Para tentar não naufragar
Nas águas da desiluzão

Quero Demais


Com uma caneta
Crio fantasias
Sou parabenizado por tal obra
Mas sinto triste

Pois é tudo
Minha obra
Fantasia

Com minha mente
Crio mundos
Sou chamado de louco
Por estar fugindo de uma realidade que não me agrada

Em meu sono
Vivo o passado
Me considero um tolo
Pois a vida não se realiza com o que ja foi realizado

Quero viver o mais rapido possivel
Mas quero viver cada segundo
Quero saber o que tudo isso significa
Mas quero ignorar a importancia de tudo
Quero morrer pra saber o que virá
Quero viver pois tenho medo do desconhecido
Quero você pois ja conheço a sua voz
Preciso conhecer outras vozes para dizer que vivi

Velho Mago

Naquela caixa
Estão minhas cartas
Cartas velhas
Centenárias

Escritas a mão
Por um velho amante
Repugnante
Repugnado

Naquela caixa
Estão meus poemas
Os mesmos versos
Centenários

Naquela estante
Estão minhas fotos
Com minhas amantes
Com meu passado

Naquela casa
Está minha infância
Que morreu e muitas decadas
Sem que eu percebesse

Naquele corpo
Jazia a mim
Um velho mago
Comberto de lágrimas e jasmim

No coração de alguém
Não morrerei
Pois serei eternamente
O presente
O amigo
O amado

Choroso e Pomposo

Soam cordas de um violão
Choroso e pomposo
Variando entre a alegria e a desilusão

A cada colcheia
Sentia uma pontada
Sentia uma facada em meu coração

Aquela escala tinha seu nome
Os intervalos eram sonoros
Nos instantes de silencio entendia o recado
Que aquele violão não seria mais usado

Tambores tocavam em tom de trítonos
Tremores tenores de tons demorados
Deixando tomarem-nos dentro de tudo
Tocando devaneios terriveis
Dixando a tristeza tomar-lhe
Tirando a demora de bonitos acordes

Soam as cordas de um violão
Choroso e pomposo
Variando entre a alegria e a desilusão

Jamilah III

Vejo a cor púrpura do horizonte,
A Imensidão do azul celeste,
Te amo mais que ontem,
Te desejo minha flor silvestre.

Olhos intensos e cativos,
Boca rubra e delirante,
Teu amor é meu incentivo,
Teu corpo meu diamante.

Tuas curvas reluzem com meus beijos,
Tua boca me mata de desejo.
Seremos um só corpo em erupção.

Dance para mim nesta noite estrelada,
Dance, entre o céu, a serpente e a espada.
Sinta que o que sinto esta além da razão.


Márcio C. Pacheco

24 junho 2009

10 junho 2009





Só mais um tempinho,

dizes, como se o século

compreensesse diminutivos.

04 junho 2009

Caixa de Papelão



Troco suas mil palavras por um abraço
Deixo de lado suas cartas para poder te beijar
Desligo o telefone e subo em um ônibus
Faço de tudo para poder lhe acompanhar

Ouço mil promessas enquanto penso nas surpresas que lhe farei
Canto versos lindos escondendo o buquê de rosas
Corro 1000 quilometros tentando chegar antes de você
Para que eu possa te mostrar aquele vestido
que você sempre quis comprar.

Mas nem tudo são caricias
Nem tudo é amor
Nos conflitos do dia a dia
Quero te mostrar quem sou
Sou um amante cruel
Enciumado e venenoso
Vingativo e curioso
Sou como qualquer outro apaixonado
Amando

Crio espectativas de ouvir de você palavras vãs que lemos em livros
Não aas ouço...na verdade...não as quero

Quero-te apenas para saber que existo
Quero-te somente ao meu lado
Abraçados
Esperando a vida acabar
Aproveitando o tempo que nos falta
Sem importar o lugar

É eterno
Para sempre...eterno
E se talvez, no futuro, isso venha a acabar
Saiba que de uma forma ou de outra
Será eterno...nas lembranças de um porta-retratos
No fundo de uma caixa de papelão
Isolada de mim a alguns anos...quem sabe até decadas
Mas o passado, não existe...existe o presente que,
constantemente muda
E nos deixa acompanha-lo onde quer que vá

-Queria...Vamos tirar uma foto?

03 junho 2009

Querer é poder




Afogando a imaginação brutalmente
Dentro de um dilúvio de desejos
Posso não saber o que quero


Afagando os pés com a grama do campo
Sento na terra e pego uma flor
Mas não é da mesma cor que as outras
Então finjo que não quero


Atracando as sílabas decisivas na boca
Sobram os olhos suplicantes
Inúteis globos nessa situação
Lento o momento se acaba
E eu finjo que não queria nada


Apalpando os sonhos e vontades
Que começam a rasgar o peito para fugir
Enquanto me chamam de idiota
Sinto que falta um rosto
Que o desejo não foi suficiente para criar
-Eu o quero


E o que faço?
Espero cair do céu!


Benza Deus!
Podisperá na cova, palhaço
Esmero e força ponha nesse aguardar
A única coisa que vai conseguir
É se borrar

02 junho 2009

Carta de alforria



Debruçado na janela
Olho o céu, esperando os raios de sol
Aguardando ansiosamente por alguma coisa
Que finjo não saber o que é

As palavras ficam enterradas na garganta
Os olhos encobertos de remela
E os sonhos mumificados a base de formol
Extenuando até a última gota as esperanças
Num delírio que recria todo dia a fé

Malditos dias estes!
Vão embora, vão tarde!
Eu agora quero novos dias

Eu quero
O dia em que não vou mais desejar
Que o vento te sussurre os meus sentimentos
Que as ondas explodam em tsunamis meus pensamentos
O dia em que não vou mais esperar
Que apenas um olhar diga todas minhas palavras
Que apenas gestos vagos me libertem de minhas amarras

Com toda a minha força eu quero
O dia em que não vou mais fingir
Que me entendo e entendo você,
Que prefiro não arriscar e dizer,
Que estou feliz e satisfeito
Em ficar remoendo e deixar doer

Chega!
Chega de lágrimas inúteis
Chega de soluços patéticos
De tristezas decadentes e tímidas
Que se alastram como um câncer
Incapacitante, decepante, atormentador
Que é o medo de viver

Venha, venha
Eu quero e terei
Me esforçarei para alcançar
O dia
Em que não vou mais precisar
Me esconder atrás de um poema para dizer que te amo
Em que não vou mais me lamentar
Pelas coisas que nunca tive coragem de fazer
Em que eu vou agir
Sem atacar ou fugir
Para ser uma pessoa melhor

Eu quero
Eu faço
Eu construo agora
O dia em que vou me libertar
De mim mesmo
O dia em que conquistarei a liberdade
De poder voltar a desejar outra coisa
A liberdade de deixar algum sonho me escravizar
E por ele lutar, sem nunca temer
A arte de viver
E não somente existir.

27 maio 2009

Ponta Seca


Onde finco o pé no chão
Centro a ponta do compasso
Traço um mundo – ilusão –
Coração me foge ao braço!

Linda e louca, uma paixão
Descentrou-me do espaço
A descentralização
Fez-me então ser tão escasso

Um destino à minha mão
Outro longe do que faço
Inquilino da emoção
Vejo flores onde passo

Mas se abraço a solidão
Minha vida foge ao laço
Vivo assim, entre a razão
E um poema que amasso....

Roberto




De vez em quando, eu me arriscava a te esquecer
e quanto mais tentava, menos eu esquecia!
Como um menino, tentando esvaziar o mar
com um pequeno balde, jogando a água na areia!
Quanto mais eu desviava o pensamento, para dissimular
mais eu via o teu sorriso na transparência do vento, a soprar!
Então eu fechava os olhos, me fazendo lembrar
de coisas que nunca aconteceram, em nenhum momento
como quando eu pedi uma cigana, para gravar
o teu nome na palma da minha mão
mas ela disse que não, pois ele já estava lá
embaraçando a linha do meu coração!
E quando eu abria os olhos, eu ainda te via
em qualquer direção que eu olhava, o dia inteiro!
Já vai para o segundo janeiro, em que eu fico assim
me sentindo um pudim, esquecido na geladeira!
Ou ainda um piromaníaco pinguim
tentando feito um louco incendiar a geleira...




Roberto

Lua adversa




Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha


Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.


E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...



Cecília Meireles

26 maio 2009

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?




Cecília Meireles

24 maio 2009



O azul carmim desbota ao tempo,
Segundos passam apressados,
Dois marujos bebem na margem do cais...
Aguardo o trem último chegar,
Ensaio pequenos versos...
Encontro momentos passados,
Tua foto sorrindo na roda gigante,
Nosso caminhar pelos pomares floridos,
Sinto o perfume das flores,
Sinto teu perfume chegando,
Vejo duas meninas abraçadas,
Percebo a lua cheia na clareira dos prédios,
As horas passam, os carros navegam pra longe,
A espera infinita me faz companheira,
Bebo uma dose recostado nas pilastras,
Pichadas,
Procuro seu nome...em vão...
Nossas marcas de outrora foram apagadas,
Corações românticos e juras de amor,
Ficaram na saudade da lembrança...
Meninos brincam de bola de papel,
Prostitutas vagueiam pelos cantos,
Fico imaginado você chegar...
De olhar feito brisa de verão,
Jeito tímido de riso da manhã,
Trazendo na bagagem teus sons a reboque,
Meia dúzia de versos líricos,
Todos lindos...todos absolutos...
Simples dizeres...profundos contrastes...
O trem último passa,
Pessoas se vão..somem na penumbra,
Não lhe vejo chegar...
O trem fica solitário...a estação fica vazia...
O silêncio parece um eterno infinito,
Vou caminhando sozinho,
Esboço um riso a deriva,
Talvez amanhã,
Você chegasse, no trem último...


noiTe

21 maio 2009

Sombras e Poesias




Vento forte que agora sopra,
impiedoso és com as folhas secas.
Amareladas e frágeis se equilibram
num fio de vida que ainda resta,
aresta de um tempo que se fora,
onde o ar clorofilado reinava.


Brisa impetuosa que abala,
sua melodia remete
aos cantos fúnebres de saudade.
Vejo as folhas secas pelo chão,
suas hastes estalam sob os pés,
restos da vida macerado, moído.
Folha que fora, hoje ruído,
do seu triturar, é só o que és.


Aragem que desliza por entre as copas,
a leveza das folhas me lembram
os sonhos alegres que tive.
Mesmo sendo noite, os sonhos luziam
então veio o sol, luz que as sombras dissipam,
que apaga o brilho das fantasias.
Dos sonhos sonhados restaram sombras e poesias.




k4akis