20 setembro 2009

Atéia prece



Escrevendo sentimentos
dou a mim o que me falta!
Pois por trás da fria pauta,
acontece alguns eventos...
Como quem contando os ventos
chega a cem e reconhece
que o vento não se tece
pelo que pode contar,
faço então, do poetar
minha terna e atéia prece!


Iluminada



Que gosto é esse que fica em minha boca
Quando sei de tua intimidade?
Que prazer é esse que me sacode inteira
Quando sou sugada por sua boca quente?

Vou em êxtase para o fundo de tua cama.
Abro minhas portas para recebê-lo
Entrego-me até desfibrilar meu coração.

É nesse céu de nuvens que me encontro,
Num remanso calmo que torna tempestade.
Chove em minhas coxas uma água salgada.
Roças seu dorso liso em meu ventre afoito
E sou consumida desmaiando em ti,
Toda iluminada


16 setembro 2009

HOMEM PENSANTE




Quase nunca ia até a janela
O risco de ser livre era grande
Jamais se deitava pensando nela
Ficava mudo para não ser falante

Não se olhava no espelho do quarto
Não tomava banho com medo de se afogar
Vivia dizendo que não nasceu de um parto
E tinha sido um pássaro que lhe ensinou a falar

Todos estavam errados menos ele próprio
Só ele sabia a maneira certa de andar
Fraquejar era seu brinquedo nobre
Jogava dia e noite com o seu "amar"

Buscava na alma todas as perguntas
Passeava sempre dentro do próprio lar
Via animais e pessoas sempre ocultas
Sabia que o mundo inteiro não era o lugar que ele deveria estar.

"POR DENTRO DA MÚSICA"



Por dentro da música
morrem os violinos
num etéreo suícidio
dos dedos e da alma,

morrem as canções
desesperadas
numa trágica ópera
sem contralto nem tenor,

Por dentro da música
morre a poesia e morre o tempo
do tempo de te cantar amor,

Por dentro da música
morre o eco da minha voz
num palco vazio
sem rosas nem aplausos


Noções



Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é que é alma:
qualquer coisa que flutua por este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

13 setembro 2009

Nosso Futuro


Andei formulando um sentido,
Criei uma imagem num mapa.
Representei seu enquadramento
Num lugar em minha vida.

Desordenaram-se as linhas
O caminho foi apagado.

Um véu de emanações tardias
Enrolou-se nas coisas ditas.
Mostrando-me, enfim,
A tênue linha que nos prendia.

Nossa vida singular era delírio,
Não passava de invenção,
De um plano imponderável
Escrito na minha mão.

Contido nas linhas escritas,
Foi incapaz de suportar
Travessia infinita
Alcançar outro lugar.

Nosso futuro ficou sem rumo,
Ficou solto, em algum lugar
De meu plano escrito.

Horas Mortas


Ali sentado de onde estava só
a rua resplandecia.
Havia luzes tão gastas e mariposas
sobrevoavam as mesas.
Uma névoa fina e transparente era cortina.
Tudo molhado, sublime, todos.
Os postes sérios, gelados,
parafusados ao solo
apoiavam namorados,
testemunhavam beijos,
encantados.
Sussurros, miados, latidos safados,
Quentes bebidas por parcos trocados.



10 setembro 2009

TORMENTOS



Trago comigo a rosa
Onde quer que esteja
Rosa bendita seja
Momentos, indecorosa
Entre tudo que vagueia
Nunca noite, sempre cheia
Trago comigo a rosa
Onde sei que procurais
Suma rosa morre prosa

09 setembro 2009

Parapeito


Vi passando
meu calado poema,
triste e findo poema oblíquo,
poema entristecido e findo,
meu triste poema conciso.

Poema das poucas portas,
das breves horas,
serenas,
debruçado equidistante
nos peitoris sem moldura
das vastas janelas
de outrora.



[]


A única coisa de que preciso agora
É a carícia de uma mão quente
Que escorregue pelo meu corpo como água
Ou como um lençol, me abrace
E que servisse para mim como um entorpecente paralizante
Para todas as minhas frustrações e fracassos
Dores e deslizes por mim cometidos

Sentidos


Me expondo dessa forma,
Preciso de mais remédio
Como as palavras carinhosas
Ditas por um amante ou amigo
Cúmplice ou cônjuge
Mulher ou marido
Que pudessem acalentar meu pranto,
Com um lenço enxugar minhas lágrimas
E com um beijo, pudessem curar meus soluços.



**


Amigos somos
Como de outros carnavais
Das tarde de fantasia
Gravuras de risos,
Dois palhaços no meio do salão,
Abraçados pulando
A nossa rima de pele,
A nossa loucura de samba,
Até o dia raiar...
Até nossos olhares partirem...
Cada um em seu rumo,
Seus tropeços intermináveis,
Seus passos irregulares,
Suas casas distantes,
Ainda sentiam...
O sabor da purpurina,
O beijo na varanda,
As promessas do infinito,
A tarde caia...
No silêncio da rua,
Na fotografia guardada,
Nas lembranças estampadas,
Nas faces solitárias...
O tempo não desbotou,
Nossos cabelos rebeldes,
O velho blues na vitrola,
O nosso mar de aquarela,
Nossas mãos abraçadas ao vento...
De longe ainda lhe sinto,
Como se nunca tivesse partido,
Como se o antes nem existisse,
Como de outros carnavais,
Amigos apenas,
Amigos simplesmente...

O teu sorriso, por favor




Por favor, me dê um sorriso
É tudo que lhe peço
Todo dia meu coração é um regresso
Dores, de amores possessos

Please, give me a smile
A only smile
I will bring the stars of the sky
The blue on the sea
Into your eyes

Resplandessa como a aurora
Não diga amores de outrora
Nem mesmo grite o que queria
Queira querer
E tu em mim vai ver
Uma face sorrindo, desigual
Mas sorrindo

Diga que voltarás a noite
Dançando valsas
Bailando em terrenos baldios

Vamos, desça, salte dai
Me dê as mãos
Vamos errar juntos o mesmo caminho...


07 setembro 2009

CHAGALL


Seguir o traço seguir o querer
a insistência e o ser
ate ao vórtice das origens.

Eixo ou seixo
desenhado na fronte dourada
de um ocaso.

Rasto ou aurora boreal
num luminoso quadro
de Chagall.

03 setembro 2009

*


Deixe-me...
Num tardar qualquer,
Neste improviso providencial,
Num ponto sem ponto,
Entre a loucura e o precipício,
Viro-me do avesso, acho-me talvez ...
Deixe-me...
Neste rumo abstrato,
Pelas margens do sem fim,
Vagando aleatório,
Nos confins da solidão,
Por certo algum eu, ainda haverei de achar...
Deixe-me....
Pelos tropeços da incerteza,
Quando ainda em sonho lhe imaginava,
Nos paraísos de meus passos,
A florir meus caminhos,
Sem conhecer o lado triste da ilusão...
Deixe-me...
Por fim neste bar de poucas luzes,
Embriagar meus sentidos confusos,
Tentando rever onde lhe perdi,
Ou simplesmente inventando,
Um jeito de viver sem você,
Ou somente deixando tudo assim,
Numa metáfora do destino,
Deixe-me...
Por instantes ainda senti-la,
Guardar no íntimo teu perfume,
Lembrar teu gosto especial,
Teus paradigmas essenciais,
Tuas virtudes plurais,
Deixa-me...
Por sempre tuas saudades,
Sem elas meu viver se esvai,
Torno-me oco de arrepio,
Um mero objeto sem sentido...


Safa


Carpe o chão que te encerra,
corre agora prá dentro
de casa,
assim como o gato,
se isole.
Faça sempre
o que te pedem,
te mandam,
doutrinam,
viva em tempos de esmola.
Coma a sobra
do que que esnoba
o pão.
Banhe o corpo em copos d'água,
transpire como transpira
um peão.
Seja o lixo que ejacula.
O lixo das gentes, das mentes, do chão.
O cativeirao e a fúria,
a força da ignorância
que predomina
e que rima
com o combustível
invisível,
com a seiva que vaza
dos cortes
nos corpos
dos delatores de plantão.
Faça agora o que te ensinaram nas cruzes,
nas mazelas,
nos átrios,
com o rabo entre as pernas,
com as mãos.
Faça com a boca traidora,
com a língua, o pulmão.
Seja o trapo
que sujo e sedento
pelos altos
é acenado
em adeus.
Assim
vindo do prelo,
modorrento,
morra e desperte,
qual cisne,
morra novamente,
enrijeça,
apodreça em azul.
Faça de conta que eu nem sei o que sabes que eu sei,
mas nada comente,
não!
Simplesmente faça
e suma, desapareça!

"AMOR PARADOXAL"



Vai amor
é preciso que partas.

Quero sentir bem
a dor da tua ausência
e a solidão
da minha nudez desabitada.

Vai!
Deixa-me só neste caminho de rosas e de espinhos.

Quando voltares, Se voltares...

tuas mãos desenharão no meu corpo
tresloucadas rosas de desejo
e as nossas bocas
morder-se-ão
em beijos desesperados
como se fosse a última vez.

Por isso quero que me deixes
para poder te amar
como se a vida fosse acabar
no momento em que,
insaciáveis,
nos possuiremos
como se fosse a primeira vez.

Circunscrições


Na praça lá do bairro,
o mundo cabe dentro.

Um menino soltando pipas
e um outro cheirando cola.

Jogo de bola, bebum no banco
Um casal no barranco, amor.

A praça do bairro
é a praça da vida
- aquela que eu não via
nos meus sonhos de criança:

O mundo dentro da praça,
a praça dentro de mim
e eu dentro do nada.


01 setembro 2009

Domador de Dores


Desconfio do estranho
domador dos corcéis dos meus cabelos
nas rédeas dos meus ímpetos
encanta a dor das serpentes
proveu no cantil o veneno da getula
o bálsamo de mim e dos reis
desse jorro de sangue perolizado.

O domador
lapidou a bruta alma
em centenas de centelhas de diamantes.

A fúria
domou a dor
brotando da lama o lótus.



Desertou no meu corpo
que suplicava o néctar à minha cura.

Foi-se distante como o vento
que prendi nas vestes
e o engaiolei nas grades de bronze
dos porões inóspitos
do meu órgão pulsante
seivando quente as veias do estranho
que domou a dor
de todos os meus medos.

Jangadeira





Já no recomeço partiu-se em mim
uma palavra,
desfez-se a nuvem de fumaça
e olhei para ti,
sem pensar,
por vários motivos.
Já sabíamos que a jangada
e o vento e as correntes do mar
nos aguardavam.
Iríamos,
formatos múltiplos,
navegar.
Por aqueles dias,
entre noites de espanto
avançaríamos,
Por ondas, por vagas,
imensos cardumes
e corais.
O sal,
o tempero,
o novelo
deste nosso estranho desejo
de morte
e de amar.


Adonis K. 77

31 agosto 2009

Face a Face __________________________________ 77



O verso se
libertou da carga
ungindo-se de tinta
em pleno inverno
e se vestiu de zêlo
só pra buscar no céu a lua
e enfrentar o dragão de São Jorge.
Com alforge de caçador
e reluzente metralhadora
arremessou pingos de liz
e vozes de anis
entre linhas...

E o verso conseguiu!
A lua está aí.
Pudera!
Foi tanto ratatatá-tatá-tá
que o dragão fugiu
assim que viu a metralhadora.


29 agosto 2009

Dois lados da esquina **






Até a esquina eu te levei
E foi lá que te deixei
Boba, apaixonada, febril

Mil beijos beijados
Naquela esquina, estalados
Se enlaçaram humanos aconchegados

Eu olhava o que estava por vir
Sabia o que viera antes
A união de pernas, de braços...

Você tinha uma ingenuidade quase infantil
Como não querer algo assim?
Pois me dava raiva...

Pois como! Como, meu deus, roubar algo
Trocar carícias
Se o mundo me pertence
E se o amor descontrói certos tipos de liberdade...

Pois como! Como, meu deus, desejar fortemente
Unicamente por isto
Sua cara de malícia
Que nem sabe o que é malícia...

Contentei-me com um café que tinha lá do lado
Comprei um capuccino expresso
Paguei, fui embora
Como um beijo no rosto e uma piscadinha me despedi
ELa sorriu e nem percebeu...

Naquela esquina
Aonde tantas gurias já tiveram em seus braços
Quantas disseram: Ah, se amar é isso! Então eu te amo mais da conta!
Ah, gostar! Gostar!

Comunhão de corpos indo de encontro a
E se perdendo na escuridão das ruas...

Lembrei de batizar o capuccino
E de ter muita dor de barriga a noite...
Só assim não pensaria em ti

Sim, eu estava literalmente cagando para o amor
E você de noite penteando os lindos cachos louros...

Ah, se a gente soubesse




Palavra por palavra
Um ato
Desmancha e distrai
É fato

Tapa por tapa
Me dê um abraço
Triste assim

Eu não tinha palavras
Não escrevi
Eu não tinha nada a dizer
Não disse

Amar a gente ama
E como ama
Pegue minha mão, vamos por aí
Por onde?

Eu ainda não sei...

Viajor



Vou por trechos encachoeirados
sem setas indicativas,
por picadas encobertas
pelas folhagens da vida.
Incertos vãos, frestas, brechas, fendas.
Feridas.
Orifícios de paixão e suor e ganidos.
Miseráveis absurdos de mentes funestas.
Cortes profundos,
acelerados passos,
sangrias,
moribundos.
Se peco ou se perco
a noção
do momento obtuso,
regresso por tanto temer
este pouco de escuro.
Se chove ou se venta ou se tento
alçar vôos noturnos,
o mêdo,
esta algema,
este trema,
me prende a este solo inconcluso.
E assim vou vivendo
entre homens complexos,
gemendo umas dores que nem doem mais.
Sou vésper,
estrela matutina.
Sou creme, sou preto, sou âmbar,
sózinho e acompanhado,
água turva,
barrenta,
opaca,
que nada em mim cristalina ou desata.


*




eu tento guardar, dentro de mim
um sonho que ainda, não fora sonhado!
um sonho assim, que eu peguei emprestado
de um tempo exilado do agora medonho!

neste sonho, tão bem desenhado
por linhas que ainda, não posso entender,
existe uma vida, um carinho, um cuidado,
um sol acanhado esperando nascer!

eu crio então, por horas aflitas,
dimensões infinitas no meu próprio divã!
quimeras guerreiras, faceiras, bonitas,
quando que enfim, serão primavera?

Mim-to




As palavras mentem o que o cérebro quer esconder
O cérebro mente o que o coração quer dizer
A mão mente o que o desejo quer fazer
O gracejo mente o que acolho de seu ser
O olho não mente
Somente espera
Desespera
E o bocejo mente uma lágrima sincera

" D O R "






Dóiem
meus pulsos de tuas algemas,

Dói-me a voz de tua mordaça,

Dói-me a alma de tua saudade,

Dói-me a vida de tua ausência,

Dóiem-me as mãos de tanta carência!



Imprecisa



Camaleões, caleidoscópios, eclipses.
Espécies de miragem, de enganos precisos.
O camaleão que surgiu do nada foi você.
Veio como um eclipse em pleno verão
para não dizer nada.
Até então atônito hoje percebo
seu formato no caleidoscópio:
Formato impreciso, volume parco.


Solstício




Em rasgos de sedução já traído,
por si mesmo ausente de tudo,
permanentemente e perdido,
de atenções e pretensões
saciado e banido,
por abstratas sentenças
debatia-se,
naquela tarde,
tal qual o cordeiro
a ser decapitado.
Era final de longa tarde de domingo.
Era um pombo.
Era outubro e chovia.
Fagulhas de aço e átomos de titânio
encobriam
a velha escrivaninha,
resplandeciam absolutos sob a luz de um sol insípido.
Alguém preparou o chá de alecrim.
Outro adornou com flores amarelas
o velho
por inteiro.
Trouxeram biscoitos amanteigados.
Perfumaram o ambiente com patchouli,
sete incensos e sete velas foram acesos.
Uma linda morena dançava
nua
ardendo esvoaçantes cabelos negros
sobre o tapete
da sala
em penumbra.
Não houve mais um dia
como aquela tarde
em que chovia.
Apenas um relâmpago testemunhou
de súbito
a lágrima efêmera.
A lágrima fria que teimava
naqueles olhos
em sobressalto,
não rolando
naquele rosto apático
mas umedecendo
as escaras
da face decrépita.
Por fim veio a noite sem sono,
estéril,
trazendo consigo
o vento indiscreto que leu as cortinas.
Que bateu portas.
Que saiu por tudo
incólume e lascivo.
O triste casarão...
Vieram as almas dos mortos sem fim,
vieram de táxi,
juntas.
Vieram os sons inescutáveis,
os gemidos impuros.
Inescrupulosos vieram os sonhos e seus sabores de outrora,
os temas,
os vícios,
a fome e a barra da aurora.
Era então uma clara manhã indesejada.
E todos,
absortos,
marcavam calendários.
Um dia solitário e úmido e desabitado.
Um dia raro qualquer.
Um dia apenas,
por ora e por fora,
amargo, louco e sereno.





Possuo um olhar,
Que vê o belo,
No horizonte podre,
Que o mundo se fez...
O outrora já não existe mais,
Pequenos fragmentos talvez,
Somos modernos, tecnológicos,
É a era dos chips, da minúscula memória,
Que cabe um universo todo,
A engrenagem enfim está no comando,
Você existe somente num programa,
Perdemos o glamour da pele...
Sucumbimos a nossa própria esperteza,
Somos meros marionetes do sistema,
Frio gelado insensível,
Todos se conhecem mas nunca se viram,
Mando-te flores pelo computador,
Posso ser tudo, mesmo sendo um mero nada,
Digo-lhe palavras bonitas copiadas,
Sorrimos bestialmente para uma imagem apática,
Nossos sonhos viraram imagens virtuais,
Saudades dos tempos das cartas,
Do olhar quase despercebido de sua chegada,
Das caminhadas pela avenida no pôr do sol,
Das pegadas na areia ao luar,
De conversar em silêncio,
De sorrir o viver...

22 agosto 2009

Angústia bestial



Meus olhos rústicos espiralam nas grutas das órbitas
Procurando endoidecidos a si mesmos
Entre os minerais rochosos e brutos das paredes
Encarcerados pela limitação rupestre do orbicular

Esperam por um esguicho morno de sangue
Um psicotrópico que flua calmante e entorpeça
Que cerre as cortinas em descanso profundo

Mas sua esperança não faz além de bombear
Impulsivamente, compulsivamente, impossivelmente
Labaredas de adrenalina,
Como fagulhas corpusculares de uma erupção
Que reacendem, excitam fibra por fibra
Um furor animalesco que clama por mais dor
Espargindo saliva por toda a carne
Estremecendo ruídos com laceração gutural
Consumindo-se
Por este ópio cáustico que corre em minhas veias
Cozinhando as células de dentro para fora.

21 agosto 2009

Preces ao luar




Durante a madrugada
Abrem-se as janelas
E o vento que sopra é frio
Como as palavras que lanço ao céu

Palavras que arranco à força
E sangram docemente
Pela minha boca
Até serem fisgadas pelas estrelas
E tremerem em soluços

Eu cravo as unhas na palma da mão
Dilacero espírito e corpo
Para entoar monótona canção
Um pedido
Com medo de não ser entendido
Que irá destroçar o coração

Relógios da Sala




Certa tarde vasculhando gavetas
empoeiradas
encontrei tua foto amarelada e sadia.
Olhamo-nos distantes.
Éramos outros seres e os amores saciados.
Aflito até certo ponto
com tua imobilidade
estremeci atônito,
Mas te deixei comigo,
entre a mão e o coração.

Tive coragem durante a borrasca,
Sorrias.
Era um tempo de bobagens e estávamos perto
de uma ponte,
faríamos a travessia entre nuvens sonhadas
e desgostos azuis.

Fechei suavemente a gaveta que rangia.
Meus ossos rangiam, meu ser.
Sentei-me na poltrona calada do quarto tardio,
nenhuma luz e o pequeno gato pardo
olhava em meus olhos.
Miava por pão.
Um livro entreaberto costurava sentenças.
Um ser de outro mundo soprou em meu ouvido
aturdido
pedindo licença.

Cobrindo a cabeça da ponte
eu fui
em minha memória de traças,
bebendo da água da fonte
que jorra e que para,
estagnando diante da única lareira,
Cobri-me.
Era tarde, então.
Silenciosos estavam os relógios da sala.

16 agosto 2009

Ângelus



Desmaia a tarde. Além, pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do Ângelus ao soluço agoniado e plangente.

Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crepúsculo desce,
A ave-maria vai cantando, tristemente.

Nest'hora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja mágoa me invade,

Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda

Francisca Júlia

Francisca Júlia, considerada a maior poetisa da língua portuguesa em seu tempo, foi a mais fiel representante do Parnasianismo no Brasil, a única que conseguiu atingir o respeito à forma e a impassibilidade exigidos pelo movimento: a arte pela arte. Criadora de versos perfeitos, sua obra, parnasiana no início da carreira, ao final da vida volta-se à poesia simbólica e mística. Seus sonetos estão entre os mais perfeitos da língua portuguesa.
.

**noiTe**






Canto sempre uma rima avulsa...qualquer..
Vôo para lá da solidão...
Que meu canto encontrará,
Uma voz desconhecida chorando,
Alguém que entenda,
O riso frágil da loucura,
De estar neste mundo cheio de gente,
De não estar em lugar nenhum...
Vago por ai procurando algo...qualquer...
Que me faça perceber,
A brutal incógnita de meu chorar,
O real cenário de minha controvérsia,
Só encontro nada,
Pequenas migalhas de luz,
Imensos corredores vazios...
E uma placa anunciando:
Vendo sonhos a prestação...
Compro uma dúzias de rosas...brancas,
Visto meu palito de domingo,
Dou uma rosa para cada meretriz,
Elas sorriem e me abraçam,
Bebemos até cairmos,
Adormeço no meio-fio da rua,
Sonho um sonho...qualquer...

EVEREST




Escalo a montanha da razão
Almejo o cume da situação
Busco um jeito de vencer
Este Everest que é você

Se nem sempre me entreguei o bastante
Se por um instante não lhe dei atenção
Me perdoe, nos dê mais uma chance
Vamos sair dessa solidão

Escalo a montanha do vencer
Almejo o cume que é você
Busco dar um jeito na situação
Este Everest de razão

Se nem sempre me entreguei de atenção
Se por um instante não lhe dei o bastante
Me perdoe dessa solidão
Vamos sair, nos dê mais uma chance

Escalo a montanha da situação
Almejo o cume da razão
Busco um jeito que é você
Este Everest de atenção

Lembrança de viver




Às vezes,
É preciso fechar os olhos
E sentir o ar, mesmo que poluído
Inundar nossos pulmões

O sangue, mesmo que infectado
Deslizar por nossas veias
Durante o corpo todo

As lágrimas, mesmo que dolorosas
Consolarem a pele com mimos
Cócegas e arrepios gelados

A comida, mesmo que asquerosa
Descer pela garganta
E garantir mais alguns dias de vida

O coração bater
O cérebro sentir
O corpo fluir
Como uma sinfonia de máquinas

E tudo sem perguntas
Sem rodeios
Sem desperdícios...

Às vezes,
É preciso procurar por nós mesmos
E juntar forças
Para nos lembrarmos que ainda estamos aqui
Carregando caminhos únicos
E um punhado de células
Que não serão mais nossas amanhã...



Anti-natural



Vagando pelas negritudes cinzas
Entre fumaças e neblinas
Sombras de espirros e tosses
Fantasmas de gargalhadas e prantos
Ecos de luzes em movimento eterno
Corpos caminhando seus destinos pela calçada
Um correndo atrasado para o casamento de alguém
Outro dormindo na sarjeta
Dividindo a água empoçada com os cães esqueléticos
Alguém vendendo frutas na esquina
Alguém sem vontade de viver
Outro alguém comemorando o novo celular

Perambulando nesse formigueiro
Podemos sentar no asfalto
E sonhar
Com uma enorme floresta
Repleta de ursos, pássaros, leões e elefantes
Sensações calmantes de natureza
Cachoeiras invertidas
E qualquer outra coisa mirabolante
Que a imaginação possa criar



Augusto

14 agosto 2009

+




Ela te beijou o rosto
E foi embora
Passararam outras
E lhe beijaram a boca
Ela acenava e dizia:
- Adeus, lindo!
Ele pedia para ficar mais...

Ela ia
E chegava o momento em que
A escuridão escondia as suas sombras
Ele beijava as outras
Mas já se iluminava por certo alguém...

*




Os outros...
Nada lhe dizem,
Pouco dizem,
Tanto faz...
Suas idéias nascem,
Florescem numa manhã qualquer,
Inconscientemente perambulam por ai,
Você sorri ao chegar da tarde,
Ninguém entende,
Ninguém percebe,
Ninguém se importa,
No crepúsculo você se embriaga,
Chora algumas lágrimas ocasionais,
Procura um amor esporádico,
Sem ternura, apenas passageiro,
Sente saudades dos tempos,
Revive dias de glória,
Dança uma sinfonia imaginária,
Pensam que você é um louco,
Danem-se os outros,
Era somente você
Encontrando incógnitas,
E seus amanheceres tardios...

"PALAVRAS IRREVERENTES"




Vens
como um delírio vermelho
que me rouba as palavras
e a matriz da verdade
num rumor de cadeias

Como se não me fosse
consentido
o revoltado grito
e a irreverência das palavras

Repetem-se os gestos rotinados
e o nácar nas bocas alheias
alucinadas em seus espelhos
tecidos de monotonia

Quisera reinventar-te, poesia
com o sangue das rosas vermelhas
e o profundo rumor da alegria



09 agosto 2009

Altas Horas



Vai fazer frio na madrugada
Abraço forte o travesseiro
Furtei das lembranças uma invenção
Lembrei do amor que nos unia
Lembrei que inventei essa ilusão

Vai chover forte nos meus terrenos
Terrenos cardiacos com terra fofa
Ali foi plantado recentemente
Uma daquelas sementes onde brota paixão

Choveu e fez frio em altas horas
O travesseiro ja está todo molhado
Não da chuva
Mas das lágrimas de um homem solitário

Sobraram ideias morfeticas do mundo
A vida me deu uma chance e vacilei
Na estrada do amor eu derrapei
E fui parar no acostamento

Acho que o resgate demora para chegar.


Acha que é verdade




Viver indigestamente
É ser inteiro
Viver digesto
É ser o contrário
Quantas coisas você realmente suporta?
Mas de suportar mesmo...
Talvez nenhuma
E diz que doi tanto, mas tanto...
A mentira é mais gostosa
Doi menos
A verdade doi mais
E é poética

Se assuma logo porra...




Descaminho, caminho e pseudo-caminho




Nesse teu descaminho,
Eu caminho
Nesse teu desvio,
Eu me guio

Nesta sua curva
Com minha vista turva
Não há porque se preocupar
Dois desvairados
Também são felizes
Podem se adestrar

Mas minto
Faço-me por iludida
Para que um iludido
Não se sinta viúvo

Na verdade,
Eu minto outra vez
Quem tento socorrer
Sou eu mesma
Que finjo ter olho
E te finjo de cego










Não me diga mais suas verdades plenas,
Já não suporto mais o peso de tuas palavras,
Preciso respirar, pare o carro, pare tudo...
Duas crianças brincavam na varanda,
Inocentemente com suas bonecas coloridas,
Por vezes reprimiam as bonecas,
E sorriam com olhares cúmplices...
Você não percebe que o céu escureceu,
E já não sabemos mais onde pisar,
Cadê a luz do sol daquele verão apaixonado?
Por onde estão as folhas do nosso outono
De tantos encontros casuais?
O inverno chegara...
O vento frio varria os becos,
No canto, largadas, esquecidas, as bonecas...
Uma estava sem os braços...
A outra repetia a gravação: mamãe, mamãe...
Até que a morte nos separe, na tristeza, na alegria...
Há há há...
Não me venha com hipocrisias,
Você tem por ai uma dose de ilusão barata?
Meu amor eu não tenho mais nada,
Nem trocados possuo,
Você me tirou tudo,
Até meus sonhos você se apropriou...
As crianças dormiam em leito esplêndido,
Na sala vazia alguns papéis espalhados,
Estavam amarelados pelo tempo,
Continham inícios de poesias...
Em todos a palavra amor aparecia...
Amor, amor, amor...

07 agosto 2009

Brisa



O sol
Não nos diz o que fazer
E a lua
Não irá reclamar
Se olharmos por mais algum instante

Se o deles continua,
É o nosso tempo que para
E espera
Quando estamos a pensar,
Sonhando acordados.

Algo que vem e vai
Como um sopro de vento fresco
Sempre deixando saudoso desejo incômodo,
Inexplicável,
Na pele


Tempo transpassado



Minha água escoa,
Sonolentamente,
Por um ralo de vidro,
Roçando seus sedimentos
Enquanto o tinge suave
Pelas lambidas mornas do tempo

A água que foi,
Foi-se.
Posso apenas observá-la
Através da camada vítrea no chão

Mas não serão as mesmas águas
O vidro terá novas cores
Outros tons...

Algo que foi passado
Mas agora é outro presente

Caem em cascata,
Guiadas por brisas úmidas,
Novas gotas
Com as quais pincelarei
Meu poço de histórias
Lembranças talvez...
- Se os sentimentos ainda fossem os mesmos


Augusto

nova-Mente




As normalidades
Convenientemente são renomeadas
Para facilidades
Conforme são criadas novas
Dificuldades

Novo cheiro
Novo embrulho
A mesma droga de sempre
Servida em um prato de porcelana