19 janeiro 2011

.

Sonho com dias melhores...
A dor se tornou minha companheira,
E nela convivo meus dias e destinos...
Não sou poeta,
Sou mero contador da minha agonia,
Vago clandestino pelos horizontes,
Já não tenho mais passos para respirar...
Um dia ainda sonhei com dias melhores,
Estes dias não nasceram...


Entre o Céu e a Terra


Ontem descobri
que entre o céu e a terra,
Nosso amor cabia inteiro.
Vi pirilampos riscarem o ar
Escrevendo poemas.

Entendi cada palavra
Embebida em orvalho,
Riscada no céu da noite
E elas chegavam líricas.

O sal do choro era lavado
Com minha água doce,
Pois sobre ti,
Minha benevolência recaia.

Descobrimos nossa substancia
E deixamos de ser névoa adormecida.
Estávamos dentro das constelações
Como um escorpião alucinado.

Tecemos um entrelaçado de flores,
Guardando em nós o incógnito.
A cabala do vento escrevia
Nessa realidade sobreposta e perfeita,
Que entre o céu e a terra
Nosso amor cabia inteiro.



Pela Vida

Vida, peço licença
Quero amar, mas sendo livre
Desatar os nós da cabeça
Nunca padecer pelos sacrifícios
Já revoguei indiferenças.

O meu suor e minha crença
Que sangra pelos orifícios
Muitas vezes abrandam problemas
Ditos, ossos do ofício
Do ser rico e ridículo.

Vida, peço licença
Vou necessitar de uma poda
Para ser mais belo por dentro
Porque atualmente por fora
O homem está fora de moda.

Chega de deuses de olhos azuis
Quero um ser cego, não belo
Quero o arco-íris sem o amarelo
Um Deus que saiba pra onde conduz.

Sem pregos, sem egos
Sem cor nem dor
Sua sombra sem cruz.
Algo assim que não sei
Que não se mostra, não se esconde
Guiando para..... ninguém sabe onde

Vida, já passei. 

.

Sinto sede aos riachos,
Bebo-me até inexistir,
Sede seca o leito do rio,
Barro seco se desfaz,
Poeira estátua se transforma,
Às margens de mim,
Riso agreste soa,
Ao vento sede se dispersa...


Pois me ame
Beijos escarlates
Sem nenhuma promessa mais
Antes do dia amanhecer
Da noite tardar
Ou os girassóis se abrirem
Os galos cantarem
Role na cama comigo
Aqui estou eu nu
Sem abrigo
Meu teto com chuva
Os dilúvios que vem em azúis de seus olhos
Só me lembram
Desse amor, desse amor, desse amor...

Não me ame nunca mais!

Teu Serei

Ouvi sua voz que me dizia
Para eu resistir.
Suas palavras eram complexas
E diziam numa impecável retórica:

"Não desista de mim,
Mesmo que penses que sou
Apenas uma alucinação,
Que nada mais resta para contar.
Não desista, eu estou aqui.
Vou abrir-te como a uma rosa,
Dar-te os sonhos que sonhaste.
Desviarei dos caminhos tortuosos,
Encurtarei as distancias,
E quando no céu apontar a lua,
Teu será o que outras mãos
Detém agora".

A Espera

















Sabes aquela que tu conheceste
Voando ao vento?
Que te procuravas ansiosamente
Cega de amor?
Que se enrolava em teu corpo
Nua a arder de desejos?

Agora é uma sombra escura,
Cortante como lâmina,
Emissária de gritos,
Ressurgida do abismo ,
Fria como água oceânica.

Anda sempre em redemoinho,
Antecipando encontrar caminho,
A fagulha de um olhar que se perdeu,
Ainda a espera de um gesto teu.

Vestida de Sombra



Você me reconhece
Quando te chamo do vazio?
Estou abandonada nesse horizonte,
Pois fui buscar meu destino.

Ninguém sabe quem sou,
Estou vestida de sombra.

Fria como mármore,
Ando passos incertos
Contando quantas vidas já vivi.

Os fantasmas levaram meus cabelos
E meus vestidos desapareceram.
Minha alma se enche de sonhos antigos,
E alguém me sopra
Furtivas ternuras de consolo.

Estou me esquecendo de tudo.
Procuro teus olhos
Entre tantos que me olham,
Para pedir que me guies
Dentro de um coração certo.

Vejo somente um lugar
Num céu de silêncio,
E tudo se dilui nos séculos que vivi.
Deixo os abraços, os amores,
Angustias, e fracassos.

Estou dentro do barco do silêncio,
Perdida nesse tempo escurecido

Você que me tocou um dia,
Escuta-me, pois te chamo.
Afasta-me daqui,
Porque muitos mortos já me chamam.



E quando você se cansar de ler as linhas
Vá nas entrelinhas
Quando cansar de ler nas entrelinhas
Vá nas estrelas
Quando cansar de observá-las
Durma, repouse
Acorde
Faça tudo isso de novo
Modificando a ordem
Acrescente dar uma espiada em uma galáxia
Veja as vezes uma porção do nada
E duas pitadas de amor
Faça tudo isso vez em quando
Quase sempre
Rode o mundo e se descubra na mesma estrela
Ela brilhará e dirá o seu nome
Você brilhará e irá dizer:
- Tenho sede
Quantas mais aguas desse vasto porfundo posso beber

Posso

Posso ser sensível, se tu quiseres
De repente incrível, aos teus olhos
Absolutamente homem
Deliciosamente herói.

Ser inteiro amor e prazeres
Do finito e infinito
Ser teu brinquedo mais íntimo
É só tu quereres.

Mas peço em troca
Que tu seques meus prantos
Escondas meus defeitos
Esqueças minhas palavras cegas
Sejas o meu leito.

Posso ser gentil ou bastardo
Sempre estar ao seu lado
Não escreverei coisas piegas.

Por entre meus caminhos
Meus afagos e desatinos
Teu amor tu não negas.


Muralha

Construí uma muralha
A minha volta,
Completamente talhada
Para guardar silêncios extremos.

Noturno lugar
De aparência antiga,
Lugar de sacrifícios e
De juventude desesperada.

Vivi no interior desta
Cidade de arcos,
Como uma mulher de fervor,
De cândida fala.

Agora vou suspensa pelo vento
E desvio dos espinhos
Que se formaram
Nas trepadeiras aladas.

Queimo minha loucura
Nos incensos de jasmim
E sinto minha vida
Se apartando, pouco a pouco num fim.

Vejo a treva na soleira da porta.
Uma luz tênue sai de minha cabeça e
Estrelas voam ao meu redor.
Ainda tenho a ilusão de felicidade.

Derramo-me sob os degraus da escada.
Diluo-me pelas frestas das pedras.
Vou caindo para fora das muralhas,
Muito antes de viver em mim.




.

Obséquio amor...
Chega-me em devaneio,
Num lapso despertino casual,
Numa brecha repentina da rotina,
Venha-me em nuances de loucura,
Desses que se vêem nos filmes,
Venha sonhar o sonho louco que sonhei,
Numa vertigem delirante da paixão,
Num seriado de amor que eu mesmo fiz,
Com beijos e abraços sentimentais,
Com bandejas ensolaradas de risos...
Chegue a qualquer hora,
Não importa se de dia ou de noite,
Simplesmente chegue,
De mansinho num breve intervalo do caos,
Ou de rompante numa opaca tarde de solidão,
Chegue simplesmente,
Porquanto ainda os olhares procuram,
No tardar dos instantes que devagar divagam...

n
Se das cinquentas coisas que puder lhe dizer
Cinco ocupem o seu tempo
Três lhe façam procurar outras
Duas lhe sejam importantes
E vinte o suficiente
Terei de dizer quarenta
Rezando para que nem você nem eu
Saiba os porquês de pelo menos quarenta e nove

17 janeiro 2011

.

Coincidentes castiçais,
Iluminavam ao vagar da aurora,
As gramaturas de um passado remoto...
No reflexo dos olhares duas pétalas sorriam,
Estavam a flertar com os beija-flores,
Desbotando suas peles de mel azulado...
Sorríamos então ao acaso daquele passado,
Parecíamos apenas crianças brincando,
Ingênuos destinos ao vento,
Revivendo antigas brincadeiras,
Lembrando certas loucuras desavisadas,
Nossos dias mais felizes...
Já tardava no crepúsculo das alamedas,
Caminhávamos sem pressa,
Com o luar a nos acariciar,
Aquele tempo passou,
A correnteza segue seus rumos imperceptíveis,
Sem perceber,
Em silêncio,
Em devaneio...

16 janeiro 2011

Aquela que Volta


Sombras me acompanham
De manhã, à noite,
Perdidas de meu alcance.
Dançam a sutileza e o compasso
Que sai de mim.

Enganam-me às vezes,
Quando se tornam estátuas adornadas.
Bocejam disfarçando,
Cercam-se de pássaros,
Que a minha volta dão corrupios.
Sopram meus cabelos,
Derrubam minha tiara
E riem dessa falsa coroa
Que aperta minha cabeça.

Que sei eu das sombras,
Senão dessas que me atiram flores?
Dão voltas para que eu me perca de mim
E do sentido urgente
De minha passagem neste lugar.

Um dia, eu também serei sombra
E cantarei para que sonhem.
Farei voarem cortinas e
Tocarei de leve, faces e mãos.

Minha casa será o ar, o vinho
Que entrar pelas bocas.
Serei comparada à brisa,
A que se perdeu entre as estrelas.
A que sempre volta na chuva,
Que escorre nas pedras
E escreve um nome.

FIAPO


Milagre

04 janeiro 2011

Tarde Demais

O que é tarde em nós me diz
Que não quer ser.
Nossas manhãs gritam
Que está chegando à hora.
Esse andar de alma derrotada
Que se acerca de nosso caminho,
Que nos envolve,
Afastando-nos dos passos
Que fizemos juntos,
Insistem em dizer
Que podíamos ter vivido mais.

Um medo atávico de ter razão,
De já saber que vamos vazando
Num sumidouro,
Subtraindo o tempo
E o direito as confidencias,
Deixa-nos vazios.

Declarávamos de forma tão exata,
Um amor que queria morrer junto,
Mas que agora espreita o resto do dia
Perdido dentro de pequenas coisas.

Sei que necessito do eterno,
Das descobertas dentro da pele,
Mas estou indo embora.
Sinto no rosto a derrota e
Uma ventania desfigurante.

Refazemos nossas horas
Todos os dias e elas são efêmeras.
A alma não está mais aqui,
É qualquer coisa de sombra,
De lugar vazio que não volta.
Qualquer coisa de nós dois
Que não existe mais.

Por Dentro




Longe de mim
os encantos,
longe, tão longe!
Infindáveis idas e vindas, 
agrestes,
diáfanas pontes.
Translúcido tempo de heras...
Carcomido exalo ao relento,
sóbrio, perspectivo, atento.
Cobri-me de algas
por dentro,
comi-me, fui vento.
" Só sei que nada sei"
Eu que não sei quem sou
Se amo ou se amou
Só sei que não sei
Quantos nãos e quantos sim
Quantas partes desconvexas
Entrecortadas, tristes, palmilhadas
De mim
Só sei
Que nada
Nada sei, sei que nada
Nada serei
Se pensar
Que nada sei
Pois sei muito
Nada sei se sou pouco
Sou muito, muito muito
Muito pouco
Mas sou alguma coisa
" Só sei que existo"